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segunda, 06 novembro 2017 16:41

Pinga: "Foram sempre os resultados que acabaram por reconhecer as minhas qualidades de treinador”

Exclusivo com um dos maiores formadores do mundo do surf… 

 

Aproveitámos o MEO Rip Curl Pro em Peniche para nos sentarmos à conversa com um dos grandes senhores do surf mundial. Luiz Henrique Saboia de Campos é o seu nome, mais conhecido por “Pinga”, treinador e formador de alguns fantásticos surfistas, como Miguel Pupo, Jadson André, Ítalo Ferreira e ainda o campeão mundial de 2015, Adriano de Souza. Dedicação e profissionalismo foi o que recebemos de uma amena e espontânea conversa que cruzou todas as áreas do Surf. Confere!  

 

Todas as fotografias de Basilio Ruy / @theboxsm

 

 

Fala-nos um pouco do teu percurso e em que altura o Desporto entra na tua vida...

Comecei muito novo, no Judo com 5/6 anos de idade. E depois veio também a Vela. Mantive-me no Judo até aos 13 anos e na Vela também até esse período. O Surf entrou na minha vida quando eu tinha 9/10 anos. Entrou porque eu morava em Niterói, uma cidade de praia do Rio de Janeiro, e coincidiu com um movimento dos anos 70 em torno do Surf. Com a mudança para São Paulo eu mudei ligeiramente o foco, mas fiquei sempre envolvido com o Surf, até porque a minha família tinha casa de praia em Guarujá. No entanto, em São Paulo, eu joguei Futsal federado durante alguns anos. Depois, aos 13, envolvi-me com o Rugby que foi um desporto que pratiquei durante 14 anos e onde joguei na primeira divisão durante vários anos. Desde criança eu estive sempre envolvido com a competição, estava no meu sangue. Mais tarde, no início dos anos 80, por volta de 1982, tive o meu primeiro envolvimento, quando ajudei a montar a primeira equipa de competição para uma marca de surf de um amigo. Em 1985-86, eu conheci o pessoal da Lightning Bolt/Quiksilver e com eles acabei por ter um relacionamento muito forte. Com cada vez mais mundiais a terem lugar no Brasil eu ajudei-os a cuidar dos seus atletas. Eu só tomava conta e conversava. Até que em 87 eles chamaram-me para trabalhar com eles. Comecei então a tomar conta da publicidade, promoção e da equipa de surf, era uma espécie de "team manager". Foi aqui que comecei a dar os primeiros passos como treinador. Na altura, além dos atletas profissionais, já tínhamos uma equipa amadora, e foi com eles que comecei a dar dicas e conselhos aos atletas, antes das suas baterias terem lugar. A coisa fluiu muito naturalmente e nunca foi algo que eu tivesse sequer imaginado. Estávamos em 95 quando saí da Quiksilver para abraçar um novo projeto, a MCD - More Core Division, seguindo-se a Reef em 97. Em todos, sempre ligado ao marketing mas também junto, muito próximo, dos atletas. Foi então que descobri o Adriano [de Souza], tinha ele 9 para 10 anos. Em 2001 o ciclo dentro da Reef terminou e eu saí, mas continuei a fazer as minhas coisas e a trabalhar sempre com atletas. Seguiu-se um projeto na Oakley Brasil. 

 

Que tipo de trabalho reconheceu as tuas qualidades como treinador?

Foram sempre os resultados que acabaram por reconhecer as minhas qualidades de treinador. O Renatinho, que era uma promessa muito forte do surf no Brasil, é um bom exemplo. O trabalho que eu desenvolvo acaba por virar um mentor no final. Porém, quando comecei era mais de assistência e suporte antes das baterias, de apoio durante o campeonato, fazer com que o atleta se concentrasse, etc. Mas depois comecei a envolver-me com as pranchas que usavam, o seu quiver, planeamento de viagens, o calendário competitivo anual, etc. Naquela época não havia muitas pessoas que fizessem esse tipo de trabalho. No Brasil, apenas duas ou três pessoas se dedicavam a fazer esse tipo de trabalho. No processo, comecei a envolver-me mais, arranjava um patrocínio aqui, outro ali, os resultados iam surgindo e, no final, os planos que traçava em conjunto com os atletas davam certo.  

 

"Foram sempre os resultados que acabaram por reconhecer as minhas qualidades de treinador"

 

 

Como era lidar com os atletas “gringos" na altura?

Eu tive oportunidade de trabalhar na Quiksilver Brasil e acabei por ter um relacionamento muito próximo com alguns surfistas que me abriu muitas portas. O rmeu relacionamento sempre foi muito bom com os “gringos”. Ainda agora encontrei o Matt Hoy, Ross-Clarke Jones e o Tom Carroll em Hossegor, durante o CT, e eles fizeram a maior festa. Até hoje eu tenho contactos com esse pessoal. Em tempos, numa viagem feita ao Brasil, eu ajudei o Nick Carroll a mudar a imagem que tinha do país e do povo brasileiro. 

 

O que diferencia Adriano de Souza de todos os outros surfistas?

Quando começámos o projeto de Adriano não foi com o objetivo de ser campeão do mundo. Na altura, nós falámos que havia uma hipótese real de ele ser campeão. O Adriano destaca-se pela sua personalidade e desde pequeno foi uma pessoa muito interessante. O seu talento, pois era um miúdo que se destacava dos demais na água. A determinação e a força mental, ele sempre soube que teria de abrir mão de muita coisa para alcançar os objetivos. E tudo isso eu vi nele desde muito cedo. Depois, juntamente com um médico, o Dr. Marcelo Baboghluian, do Instituto Mar Azul, foi desenvolvido um método de treino e programa de saúde que acabou por dar os seus frutos. Basicamente, trouxemos coisas de outros desportos que podiam ser aplicados na preparação do surfista, na componente física, psicológica e mental. O Adriano foi campeão brasileiro profissional muito jovem, ganhou uma etapa profissional aos 14 anos e foi campeão pro júnior muito novo. Ele sempre correspondeu aos desafios e entrou muito cedo no WQS. Isso também nos motivou a trabalhar mais. Tendo este programa como referência, outros miúdos começaram também a usufruir deste projeto. 

 

Quem por exemplo?

Miguel Pupo, Jadson André e André Pastori, todos eles entraram na equipa Oakley Brasil com 11/12 anos. Com eles começámos a desenvolver um trabalho. Logo vieram Caio Ibelli, que entrou no team com 10 anos. Já o Ítalo [Ferreira] observei num dos campeonatos do Rio Grande do Norte em que a equipa participou. Ele devia ter uns 12 anos... eu observei-o durante todo o campeonato, mas nunca falei com ele. Até que chegou à final e venceu! Só depois o chamei, falei com a família e ele passou a viver na nossa casa do Guarujá onde ficava toda a equipa. O Jadson chegou a morar no Guarujá de forma permanente, mas o Ítalo passava apenas temporadas mais longas de de 2 a 3 meses. O apartamento tinha todas as condições e os surfistas usufruiam de médicos, psicólogos e preparador físico. 

 

“O Adriano [de Souza] acabou por servir de referência

e puxou todos os meninos que hoje conhecemos como Brazilian Storm”

 

 

A parte física tem muita importância?

Sim. Por exemplo, em 2006, no primeiro ano de WT de Adriano, o Mick [Fanning] estava a voltar de uma lesão, mas acabou por ser um ano fantástico para ele. Na Austrália, eu conversei com ele sobre o que estava fazendo. Ele fez um trabalho físico muito forte, o que me deu indícios que eu também estava no caminho certo. Foi então que pensei que a parte física tem que ser prioritária juntamente com as partes técnico-táticas. O atleta tem que estar muito bem preparado fisicamente. Tudo o que foi desencolvido com o Adriano acabou por servir de referência e puxou todos os meninos que hoje conhecemos como "brazilian storm”. 

 

A essa idade, aos 15 anos, já dá para perceber até onde um atleta pode chegar?

Já. Mas cada um tem o seu tempo. O tempo, em atletas como o Adriano e outros, como, por exemplo, o Gabriel Medina, Filipe Toledo, muitas vezes foram antes, mais cedo. Mas o Adriano sempre conseguiu alcançar os objetivos antes, talvez por causa da sua personalidade, da sua determinação, da seriedade com que enfrenta tudo. Mas é muito importante respeitar o facto de que cada um tem seu tempo, seu momento de amadurecimento.

 

Esses atletas normalmente provêm de que estrato social?

Varia muito. A maioria dos surfistas no Brasil vêm de classes mais baixas. Não é que os atletas de classes sociai allta não tenham capacidade para surfar bem, mas isto acontece com todos os desportos, pois, de forma natural, quem precisa mais, tem mais gana e corre atrás. O Brasil é um país muito grande, definido por regiões, e hoje em dia basta-me olhar para perceber de onde vem cada atleta, seja do Rio, de São Paulo ou Santa Catarina. É claro que não sou dono da razão, mas sei onde cada um pode chegar. Se repararmos, a maioria dos atletas brasileiros que se encontra no World Tour é natural de São Paulo, talvez pela personalidade dos atletas que têm um pouco mais de garra, quiçá por realmente precisarem de correr mais atrás para conquistar suas coisas. 

 

“É muito importante respeitar o facto de que cada um tem seu tempo,

o seu momento de amadurecimento"

 

 

Que personalidade é necessário para poder ingressar no World Tour?

Uma personalidade bem forte e muita competitividade, saber que vai ter que abrir mão de muita coisa, vai ter que se dedicar a sério. Coisas que por vezes fazem a diferença, como falhar uma festinha, estar longe da família, aceitar que tem que ir viver noutra cidade para desenvolver a sua carreira, etc. 

 

Como se ganha o respeito de um atleta? 

Não é fácil no surf nem em lado nenhum. A primeira coisa é saber ter postura, ser sério, ganhar credibilidade, conquistar a confiança. A relação é por isso muito importante entre os dois e a família tem que estar envolvida. Num desporto individual a proximidade entre atleta e o treinador é maior e por esse motivo o atleta tem que ver que o que falamos não é da boca para fora. Que existe fundamento. Eu sou uma pessoa muito precavida e procuro premeditar tudo, mas reconheço os meus erros. A minha história de vida fez-me ser assim. Sou uma pessoa que me preocupo muito com o que vai acontecer daqui a 5 anos. Eu planeio tudo com muita antecedência. Tenho 52 anos, trabalho há mais de 30 com atletas, e muitas situações eu já vi acontecerem com outros atletas, marcas ou equipas. Por isso, ao tentar antecipar as coisas, acabo por ver o erro antes de ter lugar. Eu também relaciono-me muito com técnicos de outros desportos, que são francamente vitoriosos, na tentativa de entender a forma de lidar de cada um. É que no Surf são duas pessoas “full time” como se fossem apenas uma. 

 

A motivação principal para ser treinador é então o conhecimento?

Não, a minha função principal é ver os atletas terem sucesso e melhorar a sua situação de vida. É isso que me deixa feliz. É ver a qualidade de vida das suas famílias melhorarem, é ver eles comprarem um terreno ou uma casa nova. Isso, para mim, vale tanto quanto ganhar uma etapa. Por isso, eu gosto de apanhar os atletas ainda muito novos, para que possa ajudar na sua transformação a fim de se tornarem boas pessoas, atletas de sucesso. Esse é o meu estímulo. Depois vêm os resultados e tudo o resto. 

 

“Ao tentar antecipar as coisas, acabo por ver o erro antes de ter lugar"

 

 

Qual é o reconhecimento do surf na sociedade brasileira?

Nos anos 80 a Globo transmitia o circuito brasileiro de surf profissional. Todos os domingos, das semanas em que havia provas, passava na TV um resumo das fases finais do evento, e no fim de semana seguinte passava o resumo do evento inteiro. Na altura já havia esse destaque na sociedade, mas não dá para comparar com os dias de hoje. O título de Gabriel Medina ajudou muito na massificação do Surf, que não deixa deixa de ser um grande dilema uma vez que a essência se vai perdendo. O que diferencia o Surf de todos os outros desportos é precisamente o facto de não perder a sua essência. As Olimpíadas, por exemplo, vão ajudar a perder essa essência. O Jogos Olímpicos são interessantes para poucas pessoas, é preciso ter muito cuidado para não sairmos dececionados. As decisões hoje em dia têm que ser tomadas com mais tranquilidade, competência e observação, em deterimento de decisões rápidas que não são boas para o Surf numa perspetiva de médio-longo prazo. 

 

A marca brasileira mais fiel ao Surf?

O Brasil passa por um momento muito difícil em termos de marcas de surf. Historicamente temos uma Hang Loose, que está envolvida com o desporto desde os anos 80, e que continua dentro de seu DNA, e depois temos outras como a Mormaii, Maresias, Pena, Seaway, que tem que ser faladas e que têm o feeling do surf. Em termos gerais, a Billabong, a Rip Curl e a Quiksilver também têm uma palavra a dizer. No entanto, as marcas têm que pensar melhor e relembrar cada vez mais que o surf é um nicho com um lifestyle muito próprio que por si só faz toda a diferença. Trata-se de culltura de praia. 

 

Um surfista profissional tem a cultura do surf?

Hoje em dia, bem menos que no passado. Por isso eu digo que as marcas, as entidades, as ligas, todos em conjunto, têm que começar a olhar para todos os lados e conversar mais entre eles, para que possam saber o que os levou a este patamar. O Surf em Portugal ainda é “cool", parece-me, mas noutros países já é diferente. As pessoas já não usam marcas de surf. Por isso, é essencial que todos os agentes conversem mais. É preciso definir prioridades e resolver problemas. Hoje em dia são poucas as marcas que cuidam da imagem e se preocupam realmente com suas imagens e conceito. Com um equilíbrio.

 

"O que diferencia o Surf de todos os outros desportos

é precisamente o facto de não perder a sua essência"

 

 

Que atletas ainda vendem o Surf?

O John John, o Kelly… No Brasil o conjunto desta nova geração é interessante, mas devemos ter em mente que como disse, temos de buscar o equilíbrio, entre a massificação dos média e a exposição. Com a imagem e lifestyle do mundo do Surf, eu vejo que Taj Burrow foi uma das maiores ferramentas de vendas do mundo. Contudo, hoje em dia há uma troca da guarda. Daqui a 4 anos vamos sentir o reflexo dessa troca e de como resultaram as vendas. Quem vamos trazer para o nosso lifestyle? Eu acho que temos que que nos preocupar em preservar a cultura do Surf. É verdade que o desporto tem de crescer e ter mais investidores, mas não podemos perder o nosso conceito e originalidade. O que é que é o surf? Como funciona? Temos que ser sensíveis a isto. 

 

Quem escolherias se pudesses criar um organismo para gerir o Surf? 

Primeiro que tudo, diria que teríamos de recuar 20-25 anos. Eu envolveria todo o mundo. Quem éramos nós nessa altura? Qual a nossa herança? Qual a nossa História? As pessoas estão a esquecer o legado e esquecem-se por que começaram a surfar. O Surf é um desporto muito novo, mas não podemos esquecer. Vamos voltar a ser o que éramos. Há uma empresa internacional que está a tentar colocar no mercado marcas de outrora, como a OP (Ocean Pacific), Sundek, Gotcha. Isso vai ser bom! Elas vão ajudar a contar a história do Surf. Os surfistas têm que saber quem é Mark Richards, Shane Dorian, Nat Young, etc. Em termos de Brasil, as novas gerações conhecem muito pouco os ídolos do passado, é preciso trabalhar e valorizar a história. Poucos desportos usam isso, mas nós temos necessariamente que usar essas ferramentas. 

 

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