Neco Pyrrait, nascido e criado na Ericeira filho de um dos surfistas mais carismáticos do local, José Maria Pyrrait, cresceu no surfcamp de Ribeira. Lá criou amizades e recordações. Ontem de manhã cedo, polícia, máquinas e o políticos invadiram o "seu" surfcamp com uma ordem de despejo. Depois de um dia difícil, esta foi a carta que Neco entregou à Mãe antes de ir dormir, na esperança que algo mude quando acordar:
"30 de Julho de 2012 - Acordei e fui ao Facebook. O meu pai alertou-me para o que se estava a passar. Estavam a tirar tudo do MEU Surfcamp. As pizzas, o bar, a escola de surf, etc...
Tudo estava a ser retirado do Surfcamp. Fui muito rápido de bicicleta pela via rápida e cheguei em 5 minutos. Quando lá cheguei e vi tudo fora do surfcamp, cairam-me logo as lágrimas. Vi o meu grande amigo Chumbinho muito triste e quase a chorar. Chumbinho que é um irmão para mim. Depois olho para o lado e vejo o Pi a tirar tudo do lugar das pizzas, e foi aí que começei a chorar, e muito. No seu rosto eu vi tristeza, vi desespero, vi muitos anos de amizade no surfcamp. Pi e Martin, os meus melhores amigos naquele surfcamp.
Martin já é pai, o Pi..., o Pi infelizmente já não vai poder mostrar o Surfcamp à sua filha, e isso deixa-me triste. Os meus filhos já não vão conhecer o surfcamp que eu conheci, já não vão acampar ali como eu e os meus amigos acampamos. Cresci ali, eu e o Ivo Machado nascemos praticamente ali. Lembro-me de tudo muito bem, todos os momentos que passei naquele surfcamp foram bons. Conheci amigos que hoje são dos melhores, amigas especiais, noites com os amigos, surfadas de manhã, os nossos almoços nas pizzas, as melhores pizzas que já comi, no melhor sitio que poderia haver, NO SURFCAMP.
A Figueira, uma simples árvore. Uma árvore que deve ter muitas histórias. Não só minhas, mas como de muitas outras pessoas. A Figueira onde eu e o Tomás Fernandes íamos espiar o Chumbinho e o meu irmão Martin Pyrrait quando eles iam para lá fumar e lá íamos nós para sermos apanhados mais uma vez. Até uma guerra de figos fizemos para ver quem ficava com a Figueira. Os Putos(eu, Cravina, André, Francisco Romeiras e Ivo) contra o Chumbinho, Martim e André Lúcio e a minha tia Ana Figueiredo. Ainda à pouco tempo estive lá a acampar. Eu, o Manel, o Francisco Carrasco e o Francisco Nunes. Bom surf, boas festas naquele bar, boas pizzas ao jantar.
Anos e anos naquela praia e chego aos 14 anos e destróiem-me o que mais gosto, o que todos os meus amigos gostam. Não é justo. Isto não pode ficar assim. Vou tatuar o lagarto na minha perna, nunca me vou esquecer desta despedida com muitas lágrimas, muitos abraços sentidos, muitos olhares brilhantes e muitas recordações vão ficar, que nunca serão esquecidas.
O Surfcamp marcou a minha vida. Ribeira sem ele vai mudar, vai piorar, e eu também vou mudar sem ele, mas PIORAR NÃO VOU. Até porque não vão ser uns bananas que me vão mandar abaixo. Nós continuamos a lutar!!! Até ao fim!!!
SURFCAMP MAIS DO QUE UM BAR, UMA GRANDE FAMILIA."
Leça da Palmeira
Aveiro