começando pelo circuito nacional. Como achas que tem sido a sua evolução ao longo destes anos?
Já tivemos várias fases. Mais recentemente penso que o circuito esteve muito perto daquilo que é de esperar na altura em que a empresa Alfarroba o organizou. Se por um lado não é bom o circuito ser fechado a uma organização, por outro fez com que este passasse uma imagem de circuito coeso, consistente e profissional.
Neste momento continuam a existir provas muito bem organizadas, em que os surfistas, os juizes, o staff e o publico se sentem bem. Provas como a que aconteceram este ano na Ericeira, Santa Cruz, Porto, devem servir de exemplo.
O nivel de surf tem vindo a aumentar à medida que temos a presença de surfistas de gerações mais novas, o que é muito positivo.
Ao nivel do julgamento temos sempre provas que correm melhor que outras, com mais ou menos polémica, mas creio que o juri está aberto a reflectir sobre os seus erros e a trabalhar sobre isso.
Temos de ter os media do nosso lado, saber vender o circuito. Todos os organizadores devem ter essa preocupação.
Não consigo perceber o porquê de marcas como a Billabong e a Quiksilver, dois gigantes do mercado, não investirem no circuito. Andam à boleia. Essa marcas têm obrigação de marcar presença no circuito nacional. Dizem que o circuito não tem interesse mas na hora de um atleta seu patrocinado ser campeão nacional aproveitam e fazem anuncios!
Achas importante a sua existência? Porquê?
Acho fundamental o debate sobre isso. Está tudo a mudar. Seria melhor se não houvesse circuito? Seria por não haver que iriamos ter mais surfistas no WT?....
A unica vantagem que eu vejo de não haver circuito é que em termos de mentalidade irias ter a percepção de que para fazeres carreira no surf tinhas de alcançar resultados nos mundiais. Surf profissional seria sinonimo de carreira internacional. Isso podia fazer diferença. Tanto nos atletas como no investimento das marcas nos mesmos.
E na realidade, mesmo havendo circuito nacional, esta realidade já se começa a sentir. Neste momento, as marcas que nos patrocinam, já não estão tão receptivas a pagar-te um ordenado para tu andares no top nacional. Depois de o Saca entrar para o Tour, a ideia de carreira profissional mudou completamente, e ainda bem.
Se o circuito fôr um plano B para a marca e atleta, um escape no caso da internacionalizaçao não correr bem, facilmente podemos voltar para esse plano B. Ou nem sequer ir para o A (internacionalização). Eu voltei para o plano B rapidamente, o Ruben também...gastávamos menos à marca e dávamos mais retorno aqui a trabalhar no mercado nacional e europeu. E se o nacional (e o europeu) não existisse? Será que o Ruben não teria ficado nos qs mais tempo?...
Mas ainda assim, depois tens e vais ter sempre aqueles surfistas, bons surfistas, que não alcançam resultados internacionais até aos 24 anos, que as marcas reduzem o investimento, e que ficam por cá a partir a loiça toda, cheios de energia...o que é que se diz a um gajo desses? vai trabalhar? Não será melhor tê-lo cá, a competir no nacional, a dar luta aos mais novos e assim contribuir para a formação deles, a fazer viagens e a dar retorno aos patrocinadores, a inovar relativamente a explorar a sua imagem, a tornar-se uma referencia como pessoa e como surfista, admirado por muitos pelas performances sem licras, um "local hero com l e h pequeno, porque com L e H grande é o Saca! Eu penso que deve haver lugar para este surfista principalmente quando falamos de Surf, um desporto tão soul. As marcas, que mantêm o sonho do atleta vivo, podem explorar o atleta de muitas formas e tirar partido disso. E o circuito nacional pode existir com estrelas do nosso bairro, se assumirmos isso, nós atletas, as marcas e os media. Existe esse potencial. Estamos um bocado preconceituosos com isso, género, "são todos campeões de bairro e ninguém vai lá para fora!".
Penso que a Liga é benéfica para um Vasco Ribeiro, e não prejudicial. É uma questão de mentalidade. Eu não acredito que o Vasco olhe para o Nacional como o futuro dele, o Saca não olhou. Por isso não vejo esse perigo. Está na cabeça de cada um.
O que é essencial para não ser perigoso é teres atletas com potencial internacional a faltarem a provas de mundiais para ficarem cá e mesmo na construção de suas mentalidades é as marcas definirem bem os objectivos do atleta, com o atleta, e não dizer a um jovem de 18 anos que é importante ele ser campeão nacional. Isso é que não pode acontecer.
Agora, as marcas terem no seu budjet de marketing, uma verba para a realidade nacional (circuito, revistas, atletas), não vejo com mais olhos. Terem projectos de team nacional e internacional, o team internacional com participação de fora.
Eu como atleta, não estando há vários anos a competir em WQS, tenho tentado correr pelo titulo nacional, e dar retorno aos meus sponsors. Tem sido essa a nossa realidade. Mas isso só é possivel se as marcas reconhecerem que estar no top 16 nacional significa qualidade ao ponto do atleta ser pago para ser profissional e ter vida de atleta. E então vamos ter os campeões do bairro, a competir com gerações mais novas que provavelmente em pouco tempo já não vão pisar mais a arena do surf nacional. É o que acontece agora, e muito bem.
Já tive a oportunidade de ver surfistas novos portugueses a competirem com estrelas do surf mundial dos filmes e das revistas e a darem dez a zero em termos de competição e maturidade competitiva, e essa aprendizagem vem cá do bairro, dos heats feitos aqui.
Para mim o Circuito é uma mais valia gigante para os mais novos e um potencial de carreira para outros. Podemos sair todos a ganhar, se for bem estruturado.
Um patrocinador também impõe ao atleta objectivos de classificação no circuito nacional? isso representa muito no "bolo" de um surfista?
Lá está, no bolo de um surfista como o Kikas ou o Vasco devia contar zero!!! A mim custou-me ver o kikas no nacional de faro. As canárias estão aqui ao lado e era lá que ele devia estar. o saca não estaria em faro, estaria nas canarias, mesmo com hipotese de ser campeão. Para o ano já não o devemos ver cá! :-).
Por isso depende dos objectivos. No meu caso é quase o bolo todo, 80% circuito, 20% retorno por fotos etc, mais ou menos isso. talvez 70/30.
A sensação que tenho é que ser top 10 ou top 5 para um patrocinador é indiferente. O titulo é que vale!
Agora em relação a esta etapa no Algarve.. há muito anos que já naõ havia uma etapa nessa zona!!achas importante para o desenvolvimento do surf nessa zona?porquê?
Sim é importante, mas é uma zona que tem de ter opção b. Ou periodo de espera.
Sabemos que o facto da prova não ter terminado prejudicou te de alguma forma?
prejudicou. a mim a a outros certamente. mas não havia outra solução. a decisão foi unanime em reconhecer que não havia condições para o desenrolar da prova. fazer heats de 15m com 4 homens naquele tipo de condições seria ridiculo e uma falta de respeito pelos atletas. tanto a organização como os surfistas se esforçaram por fazer a prova, daí a alteração do local no ultimo dia, no entanto as ondas não apareceram. já tive em campeonatos que foram anulados da mesma forma e pelas mesmas razões. não devemos fazer disto um drama!
O que aconteceu? achas que a decisão de se fazer uma prova sem praia alternativa fora de Faro condicionou o bom desenrolar dessa mesma?
sim. mas na verdade todos aceitámos a proposta desta prova sem sitio alternativo. Arriscámos. Infelizmente para todos, desde atletas à organização, não estavam reunidas condições de mar para realizar a prova.
A organização na tua opinião deveria acautelar melhor este tipo de situações? o que pode ser melhorado?
Aprendemos todos. Para o ano fazemos um campeonato movel!
O papel da ANS poderá neste casos ser mais interventivo?
A ANS somos todos. É uma associação de surfistas. Neste aspecto talvez tenhamos errado por aceitar um campeonato ali sem opção B. Tivemos pica de voltar a Faro e arriscámos.
A ANS está de Parabéns, obrigado pelo esforço e dedicação. Bom trabalho!
Leça da Palmeira
Aveiro