Tubarão-branco mais a norte: poderá aumentar a probabilidade de passagem por águas portuguesas?
Aquecimento do oceano está a alterar a distribuição de grandes predadores, mas especialistas pedem cautela para o Atlântico Nordeste
O aquecimento do oceano e a crescente frequência de ondas de calor marinhas (marine heatwaves) estão a provocar mudanças na distribuição de várias espécies marinhas, incluindo grandes predadores. O tema voltou à discussão após um vídeo do canal científico Shark Bytes, dedicado à biologia de tubarões, analisar a tendência de tubarões-brancos surgirem em latitudes cada vez mais altas.
A questão impõe-se: poderá isto traduzir-se numa maior probabilidade de passagem por águas portuguesas?
O oceano está a mudar — e os predadores respondem
A literatura científica dos últimos anos é clara ao mostrar que o Atlântico Norte tem registado ondas de calor marinhas mais frequentes e intensas, com impactos nas cadeias tróficas. Alterações na temperatura da água influenciam a distribuição de:
plâncton
peixes
mamíferos marinhos
grandes predadores que dependem dessas presas
De forma geral, predadores de topo tendem a ajustar rotas e áreas de ocorrência quando mudam o alimento disponível e o habitat térmico adequado.

Expansão para norte já é visível no Atlântico Noroeste
Na costa leste da América do Norte (EUA e Canadá) tem sido documentado um aumento de avistamentos de tubarões-brancos em latitudes mais elevadas. Parte da explicação está associada à recuperação de populações de focas — uma das suas principais presas — e a mudanças ambientais.
Este padrão mostra que a espécie consegue utilizar águas frias quando existem recursos alimentares suficientes.
Situação no Atlântico Nordeste é diferente
Para o Atlântico Nordeste (Portugal continental, Madeira, Açores e Canárias), os dados são mais limitados.
Compilações científicas recentes sobre tubarões na região da Macaronésia indicam que o tubarão-branco está registado, mas como espécie rara. Isto significa:
A espécie já foi documentada na região
Não é uma novidade histórica
Não existe presença regular conhecida
Até ao momento, não há estudos que demonstrem uma mudança consistente de rota para esta zona motivada pelo aquecimento do oceano.

O que é plausível afirmar
Com base no conhecimento atual:
O aquecimento do oceano pode favorecer deslocações ocasionais
Alterações nas presas podem influenciar movimentos futuros
Encontros esporádicos não são impossíveis a longo prazo
Mas isso não equivale a colonização nem a presença frequente.
A comunidade científica tende a sublinhar que estes processos são graduais e ainda pouco documentados para esta região específica.
Risco para surfistas continua muito baixo
Em Portugal, os riscos no mar continuam a estar sobretudo associados a:
correntes
ondulação
condições meteorológicas
afogamento
Os tubarões-brancos fazem parte do ecossistema oceânico global, mas continuam a ser visitantes raros no Atlântico Nordeste.
Ciência antes de sensacionalismo
O tema merece atenção científica, mas não alarmismo. O que está bem documentado é a transformação dos ecossistemas marinhos devido às alterações climáticas.
Como em muitas questões oceânicas, a resposta mais rigorosa é reconhecer que o conhecimento está em evolução.
Fontes
Shark Bytes (2026). “Is This The Year White Sharks Finally Claim Northern Water?” — YouTube, apresentação de Kristian Parton, biólogo marinho e investigador de tubarões.
Estudos científicos sobre marine heatwaves no Atlântico Norte e reestruturação de ecossistemas marinhos (literatura científica revistada por pares).
Compilações científicas recentes sobre tubarões na Macaronésia (Açores, Madeira, Canárias e Cabo Verde) que registam o tubarão-branco como espécie rara na região.
Relatórios de conservação internacionais sobre a distribuição global do tubarão-branco no Atlântico.




