Marilu Gonçalves e Roly Felix, vencedores do Pro Surf São Tomé, com Maria Magalhães, Francisca Sequeira e Veridiana Bressane Marilu Gonçalves e Roly Felix, vencedores do Pro Surf São Tomé, com Maria Magalhães, Francisca Sequeira e Veridiana Bressane START ZERO ZERO
segunda-feira, 27 setembro 2021 13:02

"Podemos ser muito mais do que o que sonhamos" - Veridiana Bressane conta como o Pro Surf São Tomé fez história

Pro Surf São Tomé incluiu a primeira etapa feminina de surf na história do país.

 

Entre 1 e 8 de Setembro deste ano, o projecto START ZERO ZERO organizou o Pro Surf São Tomé: um evento histórico em São Tomé e Príncipe, que incluiu o primeiro circuito nacional de surf masculino, e a primeira etapa feminina na história do país. Este projecto é resultado do esforço colectivo de Veridiana Bressane (Girls on Board), Francisca Sequeira (SOMA) e Maria Magalhães (Brand New Territories).

A Surftotal conversou com Veridiana Bressane para saber como funcionou o evento, que balanço pode ser feito até agora do projecto, e quais são os planos para o futuro.

 

Veridiana Bressane

 

 

De que forma é que o surf, e a criação de eventos à volta do surf, pode criar oportunidades económicas, sociais e ambientais na Comunidade de Países de Língua Portuguesa?

O surf, ainda mais com a sua entrada nas Olimpíadas, é um dos desportos que mais movimenta dinheiro no mundo. Então, levando e desenvolvendo o surf nesses países que são em sua maioria subdesenvolvidos, podemos trazer técnicas, desenvolvimento humano, trazendo profissionais que vão preparar as equipas locais, como acabámos por fazer em São Tomé, onde preparámos a equipa local que nos auxiliou com a transmissão, preparando e dando suporte e conhecimento com a equipa técnica de filmagem. Trouxemos também marcas locais, para investir mais no local. Conseguimos fazer com que a CST (Companhia Santomense de Telecomunicações), por exemplo, levasse fibra óptica e internet para a parte mais extrema da ilha. Isso também traz uma visibilidade turística maior, mostra ao resto do mundo o potencial turístico e económico de São Tomé. A ideia é expandir esse conhecimento, essa possibilidade do surf como uma ferramenta de desenvolvimento nesses países.

 

Quais foram os maiores desafios na realização do Pro Surf São Tomé?

Primeiro, é um país muito pobre, então foi muito difícil atrair patrocinadores que quisessem investir numa coisa nova e num país que não tem tantos recursos financeiros para a compra dos produtos dessas empresas. Atrair os patrocinadores foi bem difícil para nós, assim como atrair audiência para um projecto novo. Com a realização da transmissão, expandindo e mostrando a qualidade da nossa produção, isso pode trazer uma realização para o próximo ano de ainda maior confiança, e talvez possamos também ter mais mão-de-obra e mais dinheiro para ter uma equipa técnica de qualidade para nos auxiliar na realização. Acho que a maior dificuldade foi essa, foi a falta de recursos financeiros e de uma equipa técnica local já preparada para nos auxiliar em todos os pontos, desde a estrutura à produção e à realização do campeonato.

 

 

“A igualdade nos prémios para os homens e para as mulheres foi uma grande conquista.”

 

 

O Pro Surf São Tomé trouxe a primeira competição feminina de sempre ao país. Que portas se podem abrir a partir deste momento histórico, tanto para o desenvolvimento do surf em São Tomé, como para o seu desenvolvimento social?

O SOMA Surf, a ONG da Francisca Sequeira, iniciou esse projecto de desenvolvimento do surf feminino como uma terapia, como uma forma de desenvolvimento para essas meninas, e já foi um grande início para termos essa inclusão feminina no campeonato. Isso fez também com que as meninas vissem dentro e fora da água mais uma possibilidade de carreira e trabalho para elas. Isso é muito importante para o país, é muito importante para as meninas locais e para todas as outras mulheres de países pobres, que elas possam ver o surf como uma possibilidade de crescimento humano. A inclusão, e a igualdade nos prémios para os homens e para as mulheres, acho que foi uma grande conquista. Mesmo elas tendo ainda um nível de surf muito diferente dos homens, elas ficaram muito felizes e foi muito bonito ver. Mesmo as que não participaram, no final vieram falar connosco a dizer “para o ano vou entrar, este ano vou-me dedicar ao surf”. É muito bom ver as mulheres a criar novos sonhos nas suas cabeças, e isto é uma grande inspiração para elas.

 

 Atleta do Pro Surf São Tomé

 

Além dos atletas que estavam em competição, como foi o envolvimento da comunidade local na realização e organização do Pro Surf São Tomé?

Primeiro, temos que agradecer ao São Tomé Surf Club, ao Ailton Leite Abril, que foi o nosso grande aliado na realização do campeonato. É ele também responsável pela Federação, juntamente com a Francisca Sequeira. Todos os atletas estavam extremamente envolvidos e dedicados não só em mostrar ao mundo o seu surf mas em ajudar-nos a realizar o campeonato da melhor forma. Pudemos contar com o Edmilson Afonso, que foi um dos convidados para ser juíz, e o Poné Borges também como juíz da etapa feminina. Não foram só os atletas mas também a população local que se envolveu, que esteve disposta a carregar caixas, sistema de som e tudo mais, para podermos realizar tudo da melhor forma.

 

 

“O nível dos surfistas de São Tomé é excelente”

 

 

Também contámos com algumas pessoas que vieram de fora, o que nos ajudou bastante. O Miguel Pedreira, comentador, e a Inês Ambrósio, longboarder e juíza, que julgou o campeonato juntamente com o António Samuel. Todos eles auxiliaram em todo o processo das notas. Também tivemos um grande apoio da Federação Portuguesa de Surf, e inclusive temos que agradecer ao João Aranha por isso. Isso foi muito bom também, pela questão de que falei antes, de preparar não só quem vai trabalhar mas também os meninos, no processo de se tornarem profissionais, e estarem cada vez mais acostumados com as regras dos campeonatos, como lidar com interferências e tudo mais. Nós organizámos um encontro com todos os atletas, e o Tiago Matos da FPS falou um pouco, juntamente com o Miguel e comigo. Falámos sobre as regras, para tirar todas as dúvidas dos meninos e deixar tudo bem claro, e isso facilitou muito. Tanto que não vimos interferências durante o campeonato, houve muito respeito, foi muito bonito. Isso foi muito bom nessa outra frente da preparação. E o nível dos surfistas de São Tomé é excelente. Quem assistiu o campeonato, principalmente no primeiro dia onde as ondas estiveram maiores e eles puderam mostrar mais o seu surf, viu que o nível deles é excelente e é o nível de muitos atletas de Portugal e do mundo.

 

Jejé Vidal 

 

Na START ZERO ZERO consideram importante a existência uma faceta de empoderamento das comunidades, no sentido de lhes oferecer as ferramentas para que as mesmas  possam dar seguimento a projectos como este de forma mais independente?

Não queremos fazer o que muitos campeonatos fazem – levam a sua equipa inteira de fora para o local e depois vão embora – mas sim preparar a equipa local. Trazer essa visibilidade mundial para os locais vai ajudar cada um desses países a tornar-se autónomo nas suas próprias produções. A ideia é ampliar isso. Este ano fizemos só em São Tomé. Para o ano devemos estar em Cabo Verde e em Moçambique, e em breve queremos estar em todos os países de língua portuguesa, e fazer com que este campeonato se torne num campeonato Intra-CPLP. A ideia é que esses países se tornem sustentáveis nas suas próprias produções e realizações. O mais importante é criar uma estrutura que fique, que seja sustentável para que esses meninos consigam continuar a evoluir dentro da água, e os profissionais fora, e que a cada ano isto se torne melhor e maior.

 

 

“Temos que pensar em como se faz crescer uma comunidade de surf”

 

 

Além do campeonato Intra-CPLP, quais são os objectivos a curto prazo da START ZERO ZERO?              

Voltamos às questões que já falei sobre as dificuldades que tivemos. Temos que pensar em como se faz crescer uma comunidade de surf. Temos que pensar sempre na categoria de base, em preparar não só a base mas os simpatizantes e toda a comunidade de uma forma geral. Até os meios de comunicação locais, que não estão habituados. Tivemos o apoio do Comité Olímpico de São Tomé, o que é muito bom. O Ministro do Empreendedorismo e Juventude também nos apoiou. Tivemos alguns apoios do governo que mostram que o olhar da sociedade e do governo de São Tomé está aberto para esta prática desportiva. Então o que percebemos foi que o trabalho que tem que ser feito não é só em relação ao nível dos atletas, mas é dar-lhes suporte anual. Um atleta não é feito de uma só competição. Tem que haver suporte psicológico, de treino, alimentação… Isso tudo faz parte. Gosto muito da frase “Sport has the power to change the world”, do Mandela. Faz um pouco parte da nossa missão, usar o desporto como ferramenta de mudança. O SOMA deixa isso muito claro com as meninas. Quando pensamos num espectro maior, de levar isso para o campeonato, como fizemos, os meninos já têm essa gana maior, já se desenha um sonho na cabeça deles, o que faz com que eles tenham outra disciplina. Conseguir internet para ver os vídeos dos atletas, conseguir pensar na alimentação, conseguir fazer um balanço de todas as questões do dia-a-dia, que não são fáceis. Mistura-se com uma vida de pescador, cortar árvores em fábricas de óleo de palma… Então tudo isso tem que ser preparado para termos uma categoria de qualidade e expandirmos cada vez mais. Pensando nisso, e na experiência que tivemos lá, acho que escolhemos um dos piores países para começar, a nível de dificuldade. Então, de certa forma, eu acredito muito que quando fizermos nos outros países, em Cabo Verde, em Moçambique, Guiné Bissau, em países onde há surf e onde podemos desenvolver esses campeonatos… apesar de ainda não termos feito visitas para analisar mais, acho que agora não há mais muito segredo. É trabalhar do básico. O mais difícil será pensar que sempre vamos ter que preparar a equipa, e com mais investimento vai ser mais fácil fazer preparações online, ou levar alguns profissionais no primeiro ano para conseguir preparar a equipa local.

 

 

“A areia é a faixa branca mais democrática do mundo. É um lugar onde somos todos iguais.”

 

 

Então, sim, a nossa visão é expandir isto para os países de língua portuguesa, e fortalecer-nos como comunidade através do surf. Podemos dizer que a areia é a faixa branca mais democrática do mundo. É um lugar onde somos todos iguais. Acho que o surf é uma ferramenta maravilhosa para ajudar um país a dar a mão a outro, para crescermos todos juntos. Realizar este campeonato Intra-CPLP vai ser uma coisa muito bonita. A nossa língua é muito bonita, e é falada em muitos países por milhões de pessoas. É lindo usarmos a nossa língua como ferramenta de união e inclusão.

 

Competidoras do Pro Surf São Tomé 

 

 

“O facto de elas nos verem, mulheres, a realizar o campeonato, fê-las perceber que nós podemos ser muito mais do que aquilo que sonhamos.”

 

Que balanco fazem, para já, da realização do Pro Surf São Tomé?

Acho ainda muito cedo para falar. Daqui a um tempo poderemos dizer estas coisas com mais certezas. Mas, primeiro em relação aos surfistas, eu sei que eles ficaram muito felizes. Isto impulsionou-os muito como atletas e como pessoas, a procurar serem cada vez melhores nas suas vidas, em todos os lugares e em tudo o que fazem. Abriu muitas possibilidades de sonhos na cabeça das meninas. O facto de elas nos verem, mulheres, a realizar o campeonato, fê-las perceber que nós podemos ser muito mais do que aquilo que sonhamos, e ajudou-as a sair um pouco dessa visão do patriarcado. O facto de não serem homens a organizar fortaleceu muito as meninas, e se não fosse assim, talvez elas se sentissem menos à vontade em estar ali no campeonato. Acho que criar esse ambiente simpático para elas tornou tudo mais suave. Outra coisa de que gostei muito foi que, na maior parte das reuniões que fizemos, desde órgãos do governo até marcas e imprensa, conversámos com muitas mulheres. Isso mostra todo um lado de mulheres empreendedoras muito grande. Eu acho que há milhões de aspectos positivos. A população, nos poucos dias em que estivemos ali, e comentámos que íamos fazer o campeonato, pessoas de várias aldeias e vilas que nós nem imaginávamos que tinham ficado a saber vieram-nos dar os parabéns. Teve uma muito boa repercussão, mesmo com as dificuldades, os stresses, que não há como não haver, mesmo com as mil baixas que tivemos desde o início do campeonato, as mil situações, pessoas que não puderam vir por causa da covid… Eu acho que foi extremamente positivo e tem tudo para correr bem e para se tornar numa coisa fixa anualmente em São Tomé, e para expandirmos no próximo ano para outros países, e quem sabe muito em breve estabelecermos o campeonato Intra-CPLP.

 

 

Cadid Fonseca (4º lugar) Kedson Fernandes (3º lugar), Zezito Fernandes (2º lugar) e Roly Felix (1º lugar) na entrega de prémios do Pro Surf São Tomé

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