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Stephanie Gilmore, a diva do surf moderno Stephanie Gilmore, a diva do surf moderno

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sábado, 31 agosto 2019 16:08

O FUTURO SÃO ELAS

Na maioria das atletas há uma tensão evidente, um excesso de competitividade, as sufistas nacionais não são exceção,...

Corria o ano de 1996 o dia era de chuva tímida e vento sul entro nas Amoreiras e subo as escadas em direção á livraria Bertrand, perplexo miro na prateleira das revistas de desporto a mítica revista Surfer Magazine “Lisa Anderson surfs better than you” engoli em seco esta frase e o meu orgulho masculino abriu uma ferida irreparável e inesquecível, até á data apenas Linda Benson  tinha sido capa duma revista de surf nos anos 60 na já esquecida Surf Guide, mas esta nova imagem retém um paradoxo inédito o surf vigoroso e “masculino” no corpo de uma mulher sensual e atraente, Lisa Anderson nesta capa não fazia voar apenas a sua prancha levantou também o surf feminino para outro patamar, desde aí começaram a emergir pranchas e fatos próprios para elas.

É um facto que até aí ninguém levava muito a sério o surf das mulheres e é preciso voltar muito atrás para recordar que uma das mais extraordinárias personalidades do surf mundial foi a corajosa e carismática Princesa Kaulani, no tempo da monarquia havaiana enfrentou os missionários americanos que reprimiram a cultura da ilha, o ato histórico de entrar no mar com a sua prancha como forma de protesto contra a escravização dos havaianos nos canaviais e plantações de abacaxi e manifestar-se no meio do oceano em voz alta para o seu povo voltar a surfar, foi provavelmente o gesto político mais nobre de toda a história do surf.
Talvez essa riqueza da cultura do surf feminino havaiano protagonizado mais tarde por Rell Sun com o seu estilo elegante e delicado sendo a primeira salva-vidas mulher e merecidamente chamada a Rainha de Makaha, veio influenciar as melhores surfistas havaianas da atualidade, ao contrário do surf competitivo e musculado da maioria das surfistas, Coco Ho e Malia Manuel mostram uma suavidade a surfar que é impossível não apreciar.

Por cá ainda me recordo quando era miúdo do surf minimalista e puro da Tê Ayala, chego a pensar que se não existisse mais ninguém no mundo ela iria surfar exatamente da mesma maneira, foi nessa altura que surgiu também a 11x campeã nacional Patrícia Lopes, a sua atitude de correr atrás do circuito mundial sem patrocínios apenas com o dinheiro de professora mostra uma resiliência e atitude que abriu muitas portas à nova geração.
 

Tenho um carinho especial pela sua eterna rival e amiga Teresa Abraços, aprendemos a surfar juntos na Poça, há quem diga que as mulheres por razões maternais e culturais são no geral mais generosas que os homens, mas a Teresa leva o seu altruísmo ao limite, vice-presidente e voluntária da Surfaddict associação que ajuda a prática do surf a pessoas com deficiências motoras, visuais ou cognitivas. Hoje em dia é uma surfista viajante e o surf nacional tem nela um exemplo e referência de integridade, simplicidade e generosidade.
Mais tarde no fim dos anos 90 Joana Rocha ex-campeã nacional criou o primeiro encontro só para surfistas femininas, o desenvolvimento e expansão do surf nacional após esta iniciativa anual foi enorme, o número de praticantes de surf cresceu exponencialmente, encontro esse que depois passou a ter uma vertente mais competitiva, que o digam Teresa Bonvalot, Camila Kemp, Carina Duarte, Francisca Santos ou Maria Abecassis entre outras..

Com a entrada no circuito mundial de Carissa More, Sally Fitzgibbons, Silvana Lima e Stephanie Gilmore, os homens foram obrigados a reparar de forma mais séria no surf feminino que  explodiu a nível de competitividade aproximando-se ainda que com uma distância significativa do surf masculino e a evolução desde aí tem sido enorme, o surf musculado e atlético tomou conta do circuito. Lakey Peterson, Sage Erickson, Coutney Conlogue e mais recentemente Caroline Marks mostram muita “testosterona competitiva” mas há claramente um défice de “soul surf”, elas não têm como nós referências como Gerry Lopez ou Michael Peterson, a história do surf feminino é recente entraram no estado competitivo sem passar pelo “soul ”vivido no universo dos homens nos anos 70/80, ironicamente a surfista com mais alma e feeling Stephanie Gilmore foi “distraídamente” sete vezes campeã mundial, o mundo das mulheres precisa de mais “Stephanie Gilmores”. É certo que os treinadores andam a puxar a competitividade delas e ninguém duvide que os cromossomas xx são mais competitivos que os nossos mas na maioria das atletas há uma tensão evidente, um excesso de competitividade, as sufistas nacionais não são exceção, falta viajarem durante três meses pela Indonésia sem treinadores e pais ao seu lado, falta de vez em quando surfarem de single fin para sentirem os músculos a relaxar, falta verem mil vezes Stephanie Gilmore a “bailar”em Jeffreys Bay…


Que à maturidade de Yolanda Sequeira, ao surf progressivo de Mafalda Lopes, aos carves de Matilde Passarinho, ao elevado nível de Teresa Bonvalot e Carol Henrique e à juventude de Gabriela Dinis, Kika Veselko, Maria Brandão e Concha Balsemão nunca lhes falte o “soul” ou uma fish no seu quiver.


O surf feminino neste momento passa por um crescimento mediático enorme, não é por acaso que lá fora os Prize Moneys começam a ser equivalentes aos dos homens, há um poder que elas já descobriram e que vende muito: o surf atlético misturado com a sensualidade é uma bomba atómica comercial, ir de rímel e lápis à prova de água mandar uma rasgada num beach break começa a valer mais do que um tubo masculino em Pipeline, para se ter uma noção John John tem menos 600.000 seguidores no instagram que Bethany Hamilton ou Alana Blanchard, nenhuma delas sequer corre o circuito mundial, as marcas não andam distraídas e o surf feminino tem um futuro promissor mas é preciso não esquecer. “O mais importante não é a concretização de vencer mas a diversão que se retira para lá chegar” é isto que Stephanie Gilmore nos diz sempre quando faz o take off…


*Por Bernardo Seabra

 






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