a direita de Boha a direita de Boha / Indolines terça-feira, 14 abril 2026 08:47

Resort de luxo em Rote gera polémica sobre acesso à onda de Bo’a e leva à detenção de surfista local

Mudanças no acesso a uma das direitas mais conhecidas da ilha estão a dividir comunidade, promotores e autoridades na Indonésia.

A ilha de Rote, na Indonésia, está a viver um clima de crescente tensão em torno do acesso à conhecida onda de Bo’a Beach, depois de um desenvolvimento turístico associado ao projeto NIHI Rote ter alterado o ponto de entrada para a praia.

A polémica ganhou nova dimensão após a detenção de Erasmus Frans, surfista local, proprietário de um homestay e antigo político, que foi alvo de um processo judicial por alegadamente ter difundido informações falsas sobre o projeto nas redes sociais.

Segundo os promotores, as acusações de que o resort estaria a bloquear o acesso à praia são falsas, defendendo que o acesso público não foi encerrado, mas apenas deslocado para outro ponto. Já Erasmus Frans e outros membros da comunidade local receiam que esta alteração possa ser o primeiro passo para uma futura restrição total do acesso à onda.

Frans, de 47 anos, foi detido em setembro de 2025, após uma publicação no Facebook onde acusava os promotores de impedir o acesso à praia e sugeria que o governo local estaria a agir sob influência externa em benefício da empresa estrangeira. O caso avançou para tribunal e os procuradores chegaram a pedir três anos e meio de prisão. Embora tenha entretanto sido libertado, o processo continua em curso na justiça indonésia.

No centro do conflito está a transformação do acesso tradicional a Bo’a Beach. Antes da construção do resort, a comunidade utilizava um caminho que atravessava terrenos do Estado para chegar à praia. Segundo Frans, esse acesso existia desde 1997 com financiamento público. Os promotores contestam essa versão e sustentam que a parte final desse trajeto nunca foi oficialmente pública, tendo resultado apenas de uso informal ao longo do tempo.

Com o avanço do empreendimento, esse antigo acesso foi absorvido pelo projeto. Numa primeira fase, passou a ser utilizada uma nova entrada informal, cerca de 300 metros a oeste. Mais tarde, em 2024, também esse acesso foi encerrado, sendo criada uma nova passagem pedonal formal no extremo oeste da praia, obrigando surfistas, pescadores e produtores de algas a percorrer mais cerca de um quilómetro para chegar à zona da onda.

Os responsáveis pelo projeto garantem que o acesso público ao mar continua assegurado e que só uma decisão conjunta da aldeia e das entidades regionais poderia alterar esse direito. Greg Sarkissian, cofundador do resort, afirmou que nunca houve um único dia em que um surfista tenha sido impedido de entrar na praia ou de surfar em Bo’a.

Ainda assim, Frans defende que o problema permanece: o acesso atual depende da permissão do resort, e não de um direito plenamente consolidado como espaço público. Por isso, propõe duas soluções: reabrir um acesso mais próximo da onda ou manter o trilho atual, prolongando-o paralelamente à praia acima da linha de maré cheia.

Erasmus Frans antes da detenção

A situação ganhou projeção internacional quando Michael Schwab, filho do bilionário Charles Schwab e cofundador do projeto, comentou o caso nas redes sociais, rejeitando com firmeza as acusações e afirmando que o resort está a trazer benefícios significativos para a comunidade local. Schwab negou qualquer intenção de privatizar a praia ou a onda e convidou quem duvide da versão oficial a visitar o local.

O contexto tornou-se ainda mais sensível por causa da associação a NIHI Holdings, empresa norte-americana ligada também a um resort na ilha vizinha de Sumba, onde há já vários anos circulam críticas relacionadas com a alegada privatização de uma onda conhecida como Occy’s Left. Essa reputação tem alimentado a desconfiança de parte da comunidade de Rote.

Do lado dos promotores, a narrativa é a de que houve várias tentativas de mediação e reconciliação, mas que Erasmus Frans continuou a atacar o desenvolvimento, recorrendo, segundo eles, a alegações falsas e a um grupo de apoiantes intimidatório. Do lado de Frans, a leitura é diferente: não está contra o investimento estrangeiro, reconhece até os benefícios económicos que pode trazer, mas entende que qualquer alteração ao acesso a uma praia deve passar por canais legais e comunitários claros.

Para já, o desenvolvimento em Bo’a continua e o acesso à onda mantém-se através do trilho pedonal no extremo oeste da praia. Mas o caso está longe de encerrado e continua a levantar uma questão sensível e cada vez mais presente em vários destinos de surf:

quem controla o acesso às ondas quando o turismo de luxo entra em território local?

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