A batalha invisível pela areia que protege praias, ondas e comunidades costeiras
A procura mundial por areia está a crescer mais depressa do que a capacidade natural de reposição, colocando em risco rios, ecossistemas costeiros, fundos marinhos e a própria resiliência das praias.
A areia, muitas vezes vista como um recurso abundante e inesgotável, está no centro de um alerta cada vez mais sério das Nações Unidas. Segundo um relatório do Programa das Nações Unidas para o Ambiente, citado pela Reuters, o mundo consome cerca de 50 mil milhões de toneladas de areia por ano, sobretudo devido ao crescimento populacional, à urbanização e à procura de materiais para construção.
A areia é o segundo recurso natural mais explorado do planeta, logo a seguir à água, sendo essencial para o fabrico de betão, vidro e outros materiais de construção. Mas é também fundamental para a estabilidade das praias, para a proteção natural contra tempestades e para a defesa das comunidades costeiras perante a erosão e a subida do nível do mar.
De acordo com a ONU, a utilização global de areia triplicou em duas décadas, atingindo um ritmo superior à capacidade natural de reposição dos sistemas geológicos, processos que podem demorar centenas de milhares de anos. A exploração descontrolada está já a provocar impactos visíveis em rios, deltas, zonas costeiras e ecossistemas marinhos.
Erosão, salinização e perda de biodiversidade
O relatório alerta que a extração excessiva de areia pode contribuir para a erosão costeira, a salinização de aquíferos, a perda de biodiversidade e uma maior vulnerabilidade das comunidades expostas a tempestades e eventos extremos.
No rio Mekong, no sudeste asiático, a retirada de areia tem sido associada ao afundamento do delta e à entrada de água salgada em zonas anteriormente férteis. Já no Sri Lanka, a remoção de areia num rio chegou a inverter o fluxo da água, permitindo a entrada de água oceânica para o interior.
Estes exemplos mostram como a exploração de areia não é apenas um problema distante da construção civil, mas uma questão ambiental com efeitos diretos sobre o equilíbrio dos sistemas costeiros e fluviais.
Proibição da retirada de areia das praias
Entre as recomendações da ONU está a criação de regras mais claras para a extração, monitorização e reporte da utilização de areia, bem como a definição de padrões internacionais para dragagens marinhas, que podem afetar a biodiversidade dos fundos oceânicos.
Uma das medidas mais fortes defendidas pelo relatório é a proibição da extração de areia das praias, por se tratar de zonas fundamentais para a proteção natural da costa.
A UNEP defende ainda a redução da procura por areia natural, através da reutilização de materiais reciclados, como betão reaproveitado e resíduos de mineração.
Uma questão central para o surf e para a defesa do litoral
Para as comunidades ligadas ao mar, e em particular para o surf, este alerta tem uma leitura muito clara: manter a areia nas praias é também proteger as ondas, os acessos, os ecossistemas e a segurança das zonas costeiras.
A erosão, a perda de areal e as alterações nos fundos podem transformar praias, afetar picos de surf, reduzir zonas de uso balnear e aumentar a exposição de infraestruturas costeiras à força do mar.
Num contexto em que várias regiões costeiras enfrentam já problemas de recuo da linha de costa, a gestão da areia deixa de ser apenas uma questão ambiental ou económica. Passa a ser também uma questão de planeamento costeiro, segurança pública e preservação de espaços naturais usados diariamente por surfistas, banhistas e comunidades locais.
A mensagem da ONU é direta: sem uma gestão mais rigorosa, o mundo poderá caminhar para uma verdadeira crise de areia, e as praias estão entre os primeiros lugares a sentir esse impacto.





