O desfile de Louis Vuitton O desfile de Louis Vuitton Frame do vídeo quarta-feira, 01 julho 2026 10:35

Louis Vuitton usa o surf como linguagem global na coleção Primavera/Verão 2027

Louis Vuitton transforma o surf em espetáculo global na passerelle de Paris

A coleção masculina Primavera/Verão 2027, assinada por Pharrell Williams, colocou uma onda gigante no centro do desfile e confirmou o poder cultural da estética surfista

O surf voltou a mostrar que é hoje uma das linguagens mais fortes da cultura global.

A Louis Vuitton colocou uma onda gigante no centro da apresentação da sua coleção masculina Primavera/Verão 2027, assinada por Pharrell Williams, num desfile realizado em Paris, durante a Men’s Fashion Week, a 23 de junho.

A apresentação transformou a Cité Internationale Universitaire numa costa imaginada, com areia na passerelle, pranchas de surf, modelos a caminhar junto a uma parede de água e uma coleção onde o universo do mar surgiu misturado com streetwear, alfaiataria, luxo e referências ao estilo de vida surfista.

A imagem tornou-se rapidamente um dos grandes momentos visuais da temporada. O desfile foi transmitido no canal oficial da Louis Vuitton e acumulou milhões de visualizações, confirmando que a onda artificial não foi apenas cenário: foi o elemento central da narrativa.

Uma onda de luxo no coração de Paris

O cenário criado para o desfile foi uma das produções mais ambiciosas da Louis Vuitton nos últimos anos.

A marca construiu uma enorme onda artificial, com água a correr continuamente pela estrutura, enquanto os modelos atravessavam uma passerelle coberta de areia.

O efeito era claro: transportar para Paris uma ideia estilizada de costa, mar e movimento.

Nas notas de apresentação, a Louis Vuitton descreveu o espetáculo como uma experiência de passerelle surreal e rítmica, marcada por ondas gigantes, streetwear de alta moda e acessórios de luxo.

Mais do que apresentar roupa, Pharrell Williams construiu uma imagem. E essa imagem tinha o surf como ponto de partida.

O surf como símbolo de liberdade e desejo

A coleção não se limitou a reproduzir clichés de praia.

Em vez de apostar apenas em camisas tropicais ou numa leitura óbvia de beachwear, a Louis Vuitton trabalhou texturas, volumes e materiais associados à vida junto ao mar.

Surgiram gangas gastas, peças largas, malhas, hoodies, detalhes inspirados em fatos de surf, acessórios de viagem e uma estética que cruzava o universo do skater, do surfista e do dandy urbano.

A prancha apareceu como objeto visual, mas a onda foi o verdadeiro símbolo do desfile.

Para a Louis Vuitton, o surf funcionou como metáfora de liberdade, movimento, viagem, adaptação e ligação à natureza. Para a moda, tornou-se uma linguagem visual imediata, reconhecível em qualquer parte do mundo.

Homenagem ou apropriação?

O impacto visual foi inegável. Mas o gesto levanta também perguntas.

Quando uma marca de luxo transforma uma onda numa peça de cenário, está a homenagear a cultura surfista ou a apropriar-se dela?

A resposta não é simples.

Por um lado, a presença do surf numa apresentação desta dimensão confirma o seu peso cultural. O surf deixou há muito de ser apenas uma prática ligada à praia. Está na moda, na publicidade, no turismo, no cinema, na música e no imaginário aspiracional de marcas globais.

Por outro lado, para muitos surfistas, há algo desconfortável em ver uma onda perfeita transformada em pano de fundo para vender roupa e acessórios de luxo.

A cultura surfista nasce da relação direta com o mar, com a espera, com a leitura das condições, com o risco, com a frustração e com a simplicidade de uma prancha dentro de água. Numa passerelle, tudo isso é filtrado, estetizado e transformado em imagem.

Sustentabilidade no discurso

A Louis Vuitton procurou enquadrar o desfile dentro de uma narrativa ambiental.

A marca explicou que a água utilizada na estrutura circulou em sistema fechado, sendo depois devolvida à rede municipal. A areia seria reutilizada em equipamentos desportivos comunitários e parte da madeira usada no evento resultava de estruturas reaproveitadas.

Foi também anunciada uma parceria com a Coral Gardeners para apoiar projetos de restauro de recifes de coral na Polinésia Francesa, ligando a narrativa do desfile à proteção dos oceanos.

Ainda assim, a imagem de uma onda artificial gigante em Paris, num contexto de calor extremo na cidade, abriu espaço a críticas e a uma pergunta inevitável: até que ponto o discurso ambiental compensa a escala do espetáculo?

O surf está definitivamente na moda

A apresentação da Louis Vuitton confirma aquilo que há muito se sente: o surf tornou-se trendy.

Não apenas como desporto, mas como estética, atitude e promessa de liberdade. Para marcas globais, o surf comunica juventude, viagem, autenticidade, natureza e desejo.

É precisamente por isso que continua a ser apropriado por indústrias que procuram aproximar-se dessa energia.

Mas o surf real continua longe da passerelle. Está no sal, na remada, na espera por uma série, no wipeout, no crowd, na maré certa, no vento incerto e na relação íntima entre surfista e oceano.

A Louis Vuitton mostrou que o surf é uma imagem poderosa.

A comunidade surfista sabe que é muito mais do que isso.

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