Stephanie Gilmore Stephanie Gilmore / WSL - James Shield quarta-feira, 27 maio 2026 12:04

Novo sistema olímpico pode deixar grandes nomes do surf fora de LA 2028

Novo sistema olímpico para LA 2028 coloca pressão sobre os surfistas do CT

 

ISA reduz vagas via Championship Tour, limita apuramento a um surfista por país através do ranking da WSL e reforça o peso dos World Surfing Games no caminho para Los Angeles.

O novo sistema de qualificação olímpica para Los Angeles 2028 está a gerar debate no surf mundial e promete alterar profundamente a forma como os melhores surfistas do mundo vão gerir as próximas épocas competitivas.

Depois de Tóquio 2020 e Paris 2024, onde o ranking do Championship Tour tinha um peso mais forte no apuramento olímpico, a International Surfing Association e o Comité Olímpico Internacional aprovaram um modelo diferente para 2028. A principal mudança está na redução das vagas atribuídas diretamente através do WSL Championship Tour: em vez de 10 homens e 8 mulheres, como aconteceu no ciclo de Paris, o CT passará a qualificar apenas cinco homens e cinco mulheres, com limite máximo de um surfista por país e por género através desta via.

CT deixa de ser a via dominante

No novo modelo, o ranking do Championship Tour de 2028 continuará a ser uma porta de entrada para os Jogos Olímpicos, mas apenas como uma das várias vias de qualificação. Além disso, a seleção através do CT será feita com base no ranking de meados de junho de 2028, o que significa que a corrida olímpica poderá ser decidida numa fase ainda intermédia da temporada.

Esta alteração tem levantado críticas entre alguns surfistas do circuito, precisamente porque o sistema poderá deixar de fora atletas de topo, incluindo eventualmente campeões mundiais recentes, caso não estejam bem posicionados no ranking nessa data ou caso o seu país já tenha garantido uma vaga por essa via.

A Reuters noticiou que o campeão mundial Yago Dora foi uma das vozes críticas, defendendo que os surfistas do CT não procuram um caminho mais fácil, mas sim um sistema que garanta que os melhores têm uma oportunidade justa de representar os seus países nos Jogos Olímpicos.

World Surfing Games ganham novo peso

Com a redução do peso do CT, os ISA World Surfing Games passam a assumir uma importância ainda maior. Em 2028, os World Surfing Games vão atribuir 10 vagas masculinas e 10 femininas, também com limite de um surfista por país nessa via.

Além disso, os World Surfing Games de 2026 e 2027 também passam a ter impacto no processo, uma vez que a melhor equipa por género pode garantir uma vaga olímpica para o respetivo país. O mesmo acontece com eventos continentais, como os Jogos Asiáticos, Jogos Pan-Americanos, Campeonato Europeu e qualificações específicas para África e Oceânia.

Na prática, isto significa que as federações nacionais terão de olhar para o ciclo olímpico de forma mais estratégica, escolhendo equipas fortes para eventos ISA que, no passado, nem sempre eram prioridade absoluta para os surfistas do CT.

O problema dos ciclos anteriores

Uma das razões apontadas para a mudança prende-se com o que aconteceu nos ciclos de Tóquio e Paris. O sistema anterior obrigava muitos surfistas do Championship Tour a participarem em eventos ISA para manterem o estatuto olímpico ou ajudarem os seus países no processo de qualificação.

Essa obrigação gerou desconforto. Segundo críticas feitas no meio do surf internacional, houve casos de atletas que participaram sem verdadeiro interesse competitivo, outros que deram prioridade mínima aos heats e situações em que lesões ou desistências foram vistas como forma de evitar compromissos adicionais num calendário já muito exigente.

O novo modelo tenta resolver esse problema de forma simples: os surfistas do CT deixam de estar obrigados a competir em eventos ISA apenas para preservar a elegibilidade olímpica. Mas, ao mesmo tempo, se quiserem aumentar seriamente as hipóteses de chegar a Los Angeles, terão agora incentivo para competir nesses eventos e ajudar os seus países a garantir vagas antecipadas.

Peru será o primeiro grande teste

Os ISA World Surfing Games 2026, previstos para Punta Rocas, no Peru, entre 6 e 15 de novembro, serão o primeiro grande teste ao novo sistema.

Será aí que se perceberá se os surfistas do CT vão aderir ao novo caminho olímpico ou se alguns optarão por ficar de fora. Para quem tem os Jogos Olímpicos como prioridade, competir no Peru pode ser uma forma de ajudar o país a conquistar uma vaga e ganhar vantagem no ciclo rumo a 2028.

Para outros, especialmente aqueles que privilegiam o Championship Tour e a corrida ao título mundial, a decisão poderá ser mais complexa. O calendário, as viagens, a carga competitiva e o risco físico continuarão a pesar.

Um sistema que divide opiniões

A mudança está longe de ser consensual.

De um lado, há quem defenda que a ISA foi a entidade que lutou durante anos para colocar o surf nos Jogos Olímpicos e que, por isso, tem legitimidade para desenhar um sistema que valorize a universalidade, os eventos por seleções e uma representação mais alargada de países.

Do outro, há quem veja o novo modelo como uma redução do peso do Championship Tour e uma ameaça à presença dos melhores surfistas do mundo nos Jogos Olímpicos. A limitação de apenas um surfista por país através do CT é particularmente sensível para potências como Brasil, Estados Unidos, Austrália, Havai ou Japão, onde vários atletas podem estar simultaneamente entre os melhores do mundo.

O limite total por país aumenta para até três surfistas por género, mas esses lugares terão de ser conquistados através de diferentes vias de qualificação, e não apenas pelo ranking do CT.

Impacto direto nos grandes nomes

O novo sistema pode criar cenários delicados. Um país com vários atletas no topo do CT poderá qualificar apenas um surfista através dessa via. Os restantes terão de procurar vagas através dos World Surfing Games ou de eventos continentais.

Isto pode tornar o processo mais imprevisível e aumentar a pressão dentro das próprias equipas nacionais. No caso do Brasil, por exemplo, onde há vários campeões mundiais e candidatos naturais a uma vaga olímpica, a disputa interna poderá ser tão difícil como a própria competição internacional.

Também para surfistas europeus, africanos, asiáticos e de países com menor representação no CT, o novo sistema pode abrir oportunidades adicionais através das vias ISA e continentais.

Los Angeles 2028 será em Lower Trestles

A prova olímpica de surf dos Jogos de Los Angeles 2028 está marcada para Lower Trestles, em San Clemente, Califórnia, uma das ondas de alta performance mais conhecidas do mundo.

Esse detalhe torna ainda mais importante a presença dos melhores surfistas possíveis, já que Trestles é uma onda onde progressão, velocidade, variedade de manobras e leitura técnica terão enorme peso.

A grande questão é precisamente essa: o novo sistema vai tornar o surf olímpico mais global e equilibrado, ou corre o risco de deixar alguns dos melhores do mundo fora da maior montra desportiva do planeta?

A resposta começará a desenhar-se já no Peru, em 2026.

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