Rui Félix fala sobre a remuneração do Presidente da Federação Portuguesa de Surf quinta-feira, 18 junho 2026 08:54 Federação Portuguesa de Surf - remuneração da presidência abre debate sobre profissionalização e resultados
Rui Félix levantou a questão sobre se a remuneração da presidência da Federação Portuguesa de Surf tem trazido mais trabalho, mais produtividade e verdadeiro valor acrescentado ao surf português.
No podcast “Pulsar do Surf”, Rui Félix levantou a questão sobre se a remuneração da presidência da Federação Portuguesa de Surf tem trazido valor acrescentado à modalidade. A atual direção respondeu, defendendo que o surf português vive hoje uma realidade muito mais profissional e exigente.
A remuneração da presidência da Federação Portuguesa de Surf voltou a entrar no debate público do surf nacional, depois de Rui Félix, fundador da FPS e antigo diretor técnico nacional, ter abordado o tema no podcast “Pulsar do Surf”, da Surftotal.
Questionado sobre o perfil necessário para liderar uma federação e sobre o facto de a presidência da FPS ser atualmente remunerada, Rui Félix defendeu que a questão deve ser analisada com base no valor acrescentado que esse modelo traz à modalidade.
O antigo diretor técnico nacional começou por sublinhar que não se considera uma pessoa de conflito e que acredita numa liderança baseada na capacidade de diálogo, harmonia e relação com os vários intervenientes da modalidade.
“Eu não sou uma pessoa de conflitos. Sou uma pessoa de harmonia, gosto de estar com toda a gente”, afirmou Rui Félix.
Para o antigo responsável técnico da FPS, essa capacidade é importante numa federação, onde coexistem clubes, escolas, atletas, treinadores, pais, dirigentes e diferentes interesses. Ainda assim, frisou que liderar não significa agradar sempre a todos.
“Às vezes, numa federação, é complicado, porque existem muitos interesses. Uma pessoa tem de dizer não se tiver de dizer não, e às vezes criam-se alguns anticorpos por causa dessa situação”, explicou.
Rui Félix defendeu, por isso, que quem está numa federação deve saber lidar com as pessoas, mas também saber explicar as decisões.
“Quem está numa federação deve saber lidar com as pessoas e saber explicar, às vezes, porque é que o que é não é não, e as pessoas terem confiança nele”, acrescentou.
Remuneração da presidência em debate
Na mesma conversa, Rui Félix foi questionado sobre a remuneração da presidência da Federação Portuguesa de Surf.
O antigo diretor técnico nacional lembrou que esse modelo não é obrigatório e que não é comum em muitas federações.
“Isso não é obrigatório. Aliás, há poucas federações onde o presidente é remunerado”, afirmou.
Rui Félix admitiu que a situação lhe causou alguma estranheza, sobretudo por estar habituado ao modelo anterior da FPS, em que Guilherme Bastos exerceu a presidência sem remuneração.
“A meu ver, e habituado que estava ao Guilherme não ser remunerado e a fazer um trabalho quase de totalidade de horas, estranhou-me um pouco”, reconheceu.
Ainda assim, Rui Félix não rejeitou a possibilidade de uma presidência remunerada fazer sentido. Para o antigo diretor técnico nacional, tudo depende do retorno que essa opção traz à Federação.
“Eu não digo que não, desde que o presidente traga grande mais-valia para a Federação Portuguesa de Surf”, afirmou.
Rui Félix evitou fazer uma avaliação fechada sobre a atual situação federativa, sublinhando não ter conhecimento detalhado das contas da Federação.
“Do João Aranha não estou perfeitamente ciente da situação. Eu não tenho conhecimento em relação às contas da Federação, nem nada”, referiu.
Ainda assim, deixou claro que a análise deve ser feita com base nos resultados.
“Se o presidente trouxer dinheiro, mais-valia financeira e know-how para a Federação, pronto, bota para a frente. Serão pessoas que terão de fazer a análise e não eu”, acrescentou.
Atual direção defende profissionalização da gestão federativa
Contactado pela Surftotal, Gonçalo Saldanha, atual presidente da Federação Portuguesa de Surf, respondeu ao tema, começando por reconhecer a importância histórica de Rui Félix na modalidade.
“O vídeo de Rui Félix, fundador da Federação Portuguesa de Surf e antigo diretor técnico da FPS, mereceu a nossa atenção. Pelo seu percurso e pela importância que teve na história da modalidade, as suas opiniões devem ser ouvidas com respeito”, afirmou.
Ainda assim, o presidente da FPS considera importante enquadrar a discussão na realidade atual do surf português.
“O surf mudou profundamente. Mudaram os atletas, os treinadores, as equipas técnicas, os patrocinadores, os promotores, os clubes e a própria exigência competitiva. A modalidade tornou-se olímpica e passou a viver num contexto muito mais profissional, rigoroso e permanente”, defendeu.
Para Gonçalo Saldanha, olhar para o presente apenas a partir de modelos do passado pode limitar a compreensão dos desafios atuais da modalidade.
“Não faz sentido termos atletas cada vez mais profissionais, treinadores mais preparados, equipas multidisciplinares e projetos de alto rendimento cada vez mais exigentes, enquanto continuamos a olhar para os dirigentes desportivos como figuras que devem trabalhar apenas por disponibilidade pessoal ou espírito de missão”, acrescentou.
“Não se trata de um privilégio pessoal”
Na resposta enviada à Surftotal, Gonçalo Saldanha defende que a remuneração da presidência pode justificar-se quando existe dedicação efetiva e valor acrescentado para a modalidade.
“Quando um presidente de federação é uma mais-valia efetiva para a modalidade e dedica grande parte, ou praticamente a totalidade, do seu tempo ao trabalho federativo, essa função possa ser devidamente remunerada”, afirmou.
O presidente da FPS rejeita que a remuneração deva ser vista como um privilégio pessoal.
“Não se trata de um privilégio pessoal. Trata-se de reconhecer o trabalho, garantir transparência e permitir que a gestão do desporto acompanhe o grau de profissionalização que já exigimos a todos os outros agentes”, sublinhou.
Segundo Gonçalo Saldanha, a evolução do enquadramento do dirigente desportivo, do mecenato e da necessidade de captar patrocinadores exige dirigentes mais preparados e presentes.
“Hoje, uma federação não pode ser gerida à distância nem apenas nos tempos livres. Muito menos uma modalidade olímpica, com ambição internacional e responsabilidades acrescidas perante atletas, clubes, famílias, parceiros e instituições públicas”, afirmou.
Um debate sobre liderança, resultados e confiança
A intervenção de Rui Félix e a resposta de Gonçalo Saldanha colocam em cima da mesa uma discussão mais ampla sobre o modelo de liderança da Federação Portuguesa de Surf.
Por um lado, Rui Félix defende que uma presidência remunerada só deve ser aceite se trouxer clara mais-valia financeira, know-how e valor real para a modalidade.
Por outro, a atual direção sustenta que o surf português vive hoje uma realidade muito mais exigente e profissional, que obriga a uma presença federativa permanente e a dirigentes capazes de responder a responsabilidades cada vez maiores.
No centro do debate está uma pergunta essencial: a remuneração da presidência da FPS deve ser vista como um custo ou como um investimento?
A resposta, como em qualquer estrutura desportiva, dependerá sempre dos resultados apresentados, da transparência do modelo, da capacidade de captar recursos, da proximidade aos clubes e atletas e do impacto concreto no desenvolvimento da modalidade.
O surf português cresceu, tornou-se olímpico e ganhou uma dimensão internacional que exige mais organização, mais planeamento e mais profissionalismo. Mas esse crescimento traz também maior responsabilidade e maior escrutínio.
A discussão levantada no “Pulsar do Surf” mostra que o tema não deve ser tratado como tabu. Deve, antes, ser debatido com serenidade, respeito institucional e foco no que realmente importa: saber qual o modelo que melhor serve o futuro do surf português.




