Surfistas envelhecem mais devagar? Médico reacende debate sobre surf e longevidade
Há uma imagem que se repete em praias de praticamente todo o mundo: surfistas que, depois de décadas dentro de água, continuam a acordar cedo, pegar na prancha e remar para o outside aos 60, 70 e até 80 anos.
Daniel Padilha aponta vários hábitos presentes naturalmente na rotina dos surfistas que poderão contribuir para um envelhecimento mais saudável. A publicação gerou uma onda de testemunhos de praticantes que continuam dentro de água aos 50, 60 e 70 anos.
Há uma imagem que se repete em praias de praticamente todo o mundo: surfistas que, depois de décadas dentro de água, continuam a acordar cedo, pegar na prancha e remar para o outside aos 60, 70 e até 80 anos.
Será apenas consequência da paixão pelo surf ou haverá alguma coisa neste estilo de vida que poderá contribuir para envelhecer melhor?
Uma publicação recente do médico brasileiro Daniel Padilha, ligado às áreas da longevidade e da medicina do estilo de vida, voltou a colocar esta questão em discussão nas redes sociais.
“Os surfistas envelhecem muito mais devagar do que o resto da população”, começa por afirmar Padilha.
A frase é provocadora e não deve ser interpretada como uma conclusão científica de que o surf retarda o processo de envelhecimento. No entanto, o argumento desenvolvido pelo médico levanta uma questão interessante: a vida de um surfista reúne naturalmente vários comportamentos que são estudados no contexto da saúde e do envelhecimento saudável.
Cinco hábitos que fazem parte de uma vida de surf
Padilha destaca cinco elementos: exposição à água fria, exercício cardiovascular através da remada, luz natural pela manhã, relações sociais e propósito.
O primeiro é a água fria. Segundo o médico, entrar regularmente no mar sujeita o organismo a um estímulo térmico capaz de desencadear diferentes respostas fisiológicas.
A exposição ao frio é actualmente uma área bastante estudada, embora seja importante não simplificar a questão: os seus potenciais efeitos sobre a inflamação, recuperação, metabolismo e saúde a longo prazo dependem de vários factores e não permitem concluir que entrar regularmente em água fria seja, por si só, uma receita para a longevidade.
Depois vem uma actividade que nenhum surfista consegue evitar: remar.
Uma sessão pode representar bastante tempo de actividade cardiovascular, intercalado com momentos de maior intensidade para passar a rebentação, disputar o posicionamento ou acelerar para entrar numa onda.
Padilha relaciona essa remada com o chamado exercício cardiovascular em “zona 2”, frequentemente estudado no contexto da saúde cardiovascular e metabólica. Uma sessão de surf, contudo, apresenta intensidades muito variáveis e não pode ser classificada simplesmente como uma sessão contínua de zona 2.
Mas há algo particularmente interessante: quem surfa regularmente pode acumular centenas de horas de actividade física ao longo de um ano sem sequer encarar esse tempo como treino.
O objectivo é apanhar ondas. O exercício vem por acréscimo.
O dawn patrol pode ter outro benefício
Existe depois um dos grandes clássicos da cultura do surf: acordar cedo.
Consultar a previsão na noite anterior, pôr o despertador e chegar à praia quando o dia ainda está a nascer faz parte da rotina de milhares de surfistas.
E aqui existe outro ponto interessante.
A exposição à luz natural durante a manhã desempenha um papel importante na sincronização do nosso relógio biológico e do ritmo circadiano, que influencia, entre muitas outras funções, os ciclos de sono e vigília.
Não é necessário ser surfista para beneficiar da luz natural matinal, evidentemente.
Mas poucos desportos conseguem convencer tanta gente a estar voluntariamente ao ar livre logo nas primeiras horas do dia.
O benefício invisível do lineup
Talvez os dois últimos argumentos sejam, contudo, os mais interessantes.
Comunidade e propósito.
Para muitos surfistas, a praia transforma-se num ponto de encontro que se mantém durante décadas.
São as mesmas caras no lineup, as conversas no parque de estacionamento, o café depois da surfada, as viagens, os amigos que telefonam quando há ondas e aquela comunidade informal que se cria em torno de uma praia.
Padilha relaciona esta dimensão social com a investigação sobre longevidade, na qual a qualidade das relações e a integração social têm sido apontadas como componentes importantes de uma vida saudável.
E depois há o propósito.
No surf existe quase sempre alguma coisa à espera.
Uma ondulação que chega daqui a três dias. Uma manhã sem vento. Uma prancha nova para experimentar. Uma viagem marcada. Ou simplesmente a possibilidade de amanhã estar melhor do que hoje.
É uma razão surpreendentemente eficaz para continuar a acordar cedo.
Padilha resume toda esta ideia numa frase:
“Surfista só chama isso de rotina.”
Dos 40 aos 70: os surfistas responderam
A publicação provocou também uma interessante reacção entre a comunidade.
Nos comentários começaram rapidamente a aparecer testemunhos de pessoas com décadas de surf.
Um surfista afirma praticar desde 1967, aproximando-se assim dos 60 anos de ligação às ondas. Outro, aos 51 anos, conta ter passado 38 deles a surfar.
Há ainda quem, aos 57 anos, tenha regressado ao surf depois de uma interrupção de mais de três décadas e esteja agora novamente a reaprender.
Outro comentário vem de um surfista de 44 anos que afirma surfar há 40.
E há respostas mais simples que provavelmente muitos compreenderão.
“Tenho 31 e sinto-me com 15”, escreve um dos seguidores.
Naturalmente, estes testemunhos não constituem evidência científica de que o surf prolonga a vida ou atrasa o envelhecimento.
Mas revelam uma característica extraordinária desta actividade: o surf consegue acompanhar uma pessoa durante praticamente toda a vida.
Afinal, o surf faz-nos viver mais?
Ainda não podemos afirmá-lo.
Também não existem elementos suficientes para concluir que os surfistas, enquanto população, “envelhecem muito mais devagar” do que quem não surfa.
E alguns dos mecanismos apresentados na publicação de Daniel Padilha, particularmente os efeitos da exposição à água fria ou a classificação da remada como exercício de zona 2, exigem mais contexto científico do que aquele que é possível transmitir numa publicação nas redes sociais.
Mas talvez a questão mais interessante nem sequer seja saber se o surf acrescenta anos à nossa vida.
A força desta actividade poderá estar na combinação de vários factores:
Movimento. Natureza. Luz natural. Relações sociais. Desafio. Aprendizagem. E um motivo para voltar amanhã.
Tudo dentro da mesma actividade.
E existe ainda uma diferença fundamental: para a maioria dos surfistas, nada disto é encarado como um “protocolo de longevidade”.
Ninguém entra no mar a pensar que está a cumprir uma sessão de exercício cardiovascular, a trabalhar o ritmo circadiano ou a fortalecer relações sociais.
Vai simplesmente surfar.
Talvez seja precisamente aí que esteja uma parte importante da resposta.
Ainda não sabemos se apanhar ondas nos faz viver mais anos. Mas há poucas dúvidas de que o surf pode ajudar a dar mais vida a esses anos.
Nota: as afirmações sobre saúde apresentadas na publicação original devem ser interpretadas como informação geral e não substituem aconselhamento ou avaliação médica individual.





