Morreu Dadá Figueiredo, ícone do surf brasileiro e pioneiro do estilo progressivo, aos 61 anos
Nascido a 4 de março de 1965, no Rio de Janeiro, Dadá Figueiredo destacou-se numa geração em que o surf brasileiro começava a afirmar a sua identidade competitiva e cultural.
Com uma abordagem pouco convencional, foi um dos primeiros surfistas brasileiros a incorporar movimentos inspirados no skate, explorando batidas verticais, laybacks e rasgadas agressivas que anteciparam algumas das características do surf progressivo moderno.
Um surfista à frente do seu tempo
Dadá não seguia tendências. Criava-as.
Numa época em que o surf competitivo privilegiava linhas mais tradicionais, o carioca apostava em manobras explosivas, mudanças bruscas de direção e uma utilização radical das secções mais críticas da onda.
O seu estilo valeu-lhe o reconhecimento de outros surfistas e ajudou a abrir caminho a uma nova geração de atletas brasileiros.
Em 1989, conquistou o título de campeão carioca e venceu o Sea Club Final Heat, disputado em Saquarema. Quatro anos depois, em 1993, foi eleito o melhor freesurfer do Brasil pelos leitores de uma revista especializada.
A sua influência estendia-se também ao desenho das pranchas. Enquanto shaper, desenvolvia modelos mais curtos, estreitos e leves do que os habitualmente utilizados na época, procurando equipamentos que acompanhassem a sua abordagem radical às ondas.
Surf, punk e uma atitude de contracultura
Mais do que um atleta, Dadá Figueiredo tornou-se um símbolo da ligação entre o surf e a cultura alternativa brasileira.
Influenciado pelo punk e pelo hardcore, foi baixista da banda Os Normais e criou as marcas Anti-Fashion e Necrose Social, transportando para fora de água a mesma irreverência que demonstrava nas ondas.
A sua imagem e atitude contrastavam com os padrões dominantes do surf da época, tornando-o uma figura particularmente marcante entre os jovens que procuravam uma identidade diferente dentro da modalidade.
Uma vida marcada por desafios e recomeços
O percurso de Dadá também teve momentos difíceis. Ao longo da vida, enfrentou problemas de dependência química e passou por processos de reabilitação.
Em 1990, sobreviveu a um episódio de violência em que sofreu 12 facadas.
Mais tarde, encontrou um novo caminho pessoal, tornando-se pastor evangélico e mantendo a ligação ao oceano através do shaping e do ensino do surf.
Na Barra da Tijuca, criou uma escola de surf, partilhando com novas gerações o conhecimento acumulado ao longo de décadas.
O legado de um dos grandes revolucionários do surf brasileiro
A Federação de Surf do Estado do Rio de Janeiro (FESERJ) lamentou publicamente a morte do antigo campeão, destacando a sua contribuição para a evolução da modalidade e a influência que exerceu sobre sucessivas gerações.
Dadá Figueiredo deixa três filhos, entre os quais o também surfista Dávio Figueiredo.
A sua importância para o surf brasileiro ultrapassa os resultados competitivos. Foi um dos nomes que ajudaram a transformar a linguagem técnica e cultural da modalidade, mostrando que a originalidade, a atitude e a liberdade de expressão podiam ser tão importantes como os títulos.
O surf brasileiro despede-se de um dos seus maiores inconformistas, um homem que viveu intensamente e que deixou uma marca singular na história das ondas.





