Nick e Antonio Pereira Caldas fundaram na Costa da Caparica a 1ª marca de pranchas de surf em Portugal - A Lipstick Surfboards em 1980 Nick e Antonio Pereira Caldas fundaram na Costa da Caparica a 1ª marca de pranchas de surf em Portugal - A Lipstick Surfboards em 1980

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quinta-feira, 14 maio 2020 17:35

O ESTADO DA CULTURA DO SURF - A OPINIÃO DE NICK URICCHIO

A história e a cultura do surf deve ocupar um lugar de incontornável destaque no nosso mundo.

 

Com a massificação da arte de deslizar nas ondas em cima de uma prancha tem-se vindo a verificar uma tendência para aligeirar o seu conceito, tornando o surf em apenas um desporto, coisa que o surf não é só.

A imprensa especializada e os principais agentes do surf tem aqui um papel fundamental na preservação e divulgação da história e cultura do surf, passando-a com eficácia de geração em geração, por forma a manter as bases sólidas de uma pirâmide que representa em todo o mundo mais de 30 milhões de praticantes e uma Industria em crescimento.

 

A Surftotal tem estado à conversa com as mais diversas personalidades da história do surf nacional e internacional que nos têm vindo a deixar o seu testemunho e opinião sobre a situação actual da história e cultura do surf.

 

Tem a palavra Nick Uricchio, Californiano radicado em Portugal desde o final dos anos 70, Nick fundou juntamente com António Pereira Caldas a primeira marca de pranchas de surf em Portugal, as Lipstick Surfboards, (na Costa da Caparica), tendo depois disso fundado juntamente com Miguel Katzenstein a Semente Surfboards, uma das marcas de pranchas de surf Portuguesas de maior renome a nível mundial!  

 

 

 

"Acho que há uma parte da nova geração que mantém

e tenta manter a cultura do surf viva e outra que já não tanto."

 

 

 

*A carrinha onde se podiam fazer as encomendas de pranchas ano 1980

 

 

 

 

Surftotal: A cultura do surf tem vindo a ser um alicerce no qual o surf como modalidade e estilo de vida tem vindo a assentar. A sua importância na preservação de todo um culto e um mercado tem sido evidente. Como achas que tem mudado de geração em geração? Na tua opinião a essência do surf ainda se mantém ou as novas gerações estão cada vez mais distantes e indiferentes a ela?

 Nick Uricchio: Acho que a cultura do surf é uma coisa que pode ser vista de várias formas, ou seja, é vendável, é um embrulho de pacote, há muitas marcas que agora usam uma onda de cultura. A cultura antiga, as várias fases do surf, é usada como um veículo que hoje em dia vende bastante. Há muita gente da nova geração que procura agarrar ou estar ligado à cultura antiga, com a onda das retros e a onda daquela altura do surf com mais espírito livre. E há outra parte da nova geração que não tanto, é uma geração mais ligada ao lado competitivo, mais desportistas. Também há mais gente dentro de água, isso tem tudo a ver, mas acho que há uma parte da nova geração que mantém e tenta manter a cultura do surf viva e outra que já não tanto.

Sempre tiveste um relacionamento excepcional com os teus clientes, independentemente de quem são, e quiseste saber o seu feedback. Esta tua atitude é a tua forma de seres leal às origens e valores do surf?

 Nick Uricchio: Isso é a minha personalidade em geral. Oiço e gosto de tratar bem as pessoas e encontrar boas soluções com elas. Gosto de passar bons valores, tanto a surfistas como a pessoas que não fazem surf. Acho que o objetivo das pessoas é andarem no planeta e passarem bons valores aos outros, não é andarmos a fazer mal uns aos outros. Acho que é isso. É a minha própria personalidade, a minha forma de ser.

 

Zezinho la Fuente, Nick and Miguel Katzenstein durante a construção do edificio Semente Surfboards ano 1982

 

 

 

 

 

"O que estraga a cultura do surf são escolas a mais,

pessoas a mais e má onda dentro de água....

Falta ensinar as leis básicas do surf..."

 

 

 

 

Tens uma equipa de surfistas de luxo. Que impacto achas que eles têm em auxiliar a manter a cultura do surf em Portugal?

Nick Uricchio: Acho que os atletas fazem, ou vão fazer parte, da cultura do surf. Ou seja, a cultura é feita de história e através da história constróis uma cultura. Muitos deles, seja um Saca, seja um Gony, seja um Marlon, seja um Vasco, todos eles fazem parte da nossa cultura de surf em Portugal. Alguns fazem um papel melhor do que outros e tentam sempre lembrar à nova geração para terem mais respeito, enquanto outros não têm tanta informação para dar.

Como vês atualmente a cultura do surf no Mundo e em Portugal?

Nick Uricchio: Ficou muito focada nas vendas mas tem lógica isto estar a acontecer porque hoje em dia há muitos surfistas e criou-se uma cultura de comprador também. Por exemplo, tens surfcamps pelo mundo fora e estão sempre a projetar aquela onda de cultura do surf. As pessoas estão a manter a cultura do surf viva. Vejo a cultura do surf hoje em dia sobrecarregada, escolas a mais, coisas a mais... Acho que nesse sentido a cultura do surf está a levar a uma massificação.

 

 A Shapear com Clark Foam na Feira Nauticampo em Lisboa durante os anos 90.

 

 

"são as histórias que fazem a cultura do surf e o tornam mais enraizada"

 

 

 

 

Qual a região do nosso país que mostra mais valores fieis à cultura do surf? Porquê?

Nick Uricchio: Penso que há hotspots pelo país fora. Tens lá em baixo em Faro, tens um bocadinho em Lagos, Carcavelos e toda a Linha de Cascais, uns gajos da velha guarda na Costa de Caparica, em Peniche, na Figueira da Foz e na Ericeira há uns grupos antigos, mas acho que há hotspots em todo o lado. Como a Ericeira faz um festival, que normalmente tem uns filmes muito trendy da cultura do surf, há trabalho a ser feito para manter a cultura viva, mas não acho que haja um que seja mais forte. Talvez a Ericeira, mas é de uma maneira comercial também, é para chamar mais gente, ter mais pessoas, fazer o surfistas estarem cá durante o Verão. Por isso, acaba por ser comercial, estás a apoiar a cultura, a mantê-la viva, mas para vender. Tens também o SAL – Surf at Lisbon Film Fest, em Lisboa, que mostra alguns dos melhores filmes e documentários de cada ano juntando a comunidade do surf havendo essa partilha de experiências e histórias nacionais e internacionais.

*Litrio, Nick e Mulas, 1978 - Santo Amaro durante a sua primeira visita a Portugal!

 

Quais os principais meios de propagação e enraizamento da cultura do surf?

Nick Uricchio: São as histórias, o avô conta ao pai, o pai conta o filho e por aí abaixo. Através dos livros, filmes, palestras e coisas do género, para manter e passar as histórias, pois são as histórias que fazem a cultura do surf e o tornam mais enraizada.

Quais os antagónicos?

Nick Uricchio: O que estraga a cultura do surf são escolas a mais, pessoas a mais e má onda dentro de água, o ensino das escolas. Falta ensinar as leis básicas do surf – não remar em frente a um surfista na onda, remar sempre para a espuma branca, não largar a prancha à frente de ninguém, aquelas regras que sabemos. Essa cenas de levar o surf para o lado totalmente comercial e não ligar às raízes, não ter respeito, essas são as coisas que, para mim, estragam.

 

 

*Nick a surfar a onda dos Coxos. Revista Surf Portugal Nº12 - Set/Out 1990

 

 

 

"Se uma prancha não for branca ou transparente.....

ninguém vai curtir ter uma prancha amarela..."

 

 

 

 

Cada vez há uma maior consciência da responsabilidade de cada um de nós na preservação do planeta, dos oceanos, e praias, contudo a indústria do surf é conhecida por ser uma indústria bastante poluente. Qual achas que deveria ser o papel da indústria, nomeadamente a de fabrico de pranchas, no que diz respeito à sustentabilidade?

Nick Uricchio: Esta é uma pergunta que tenho respondido bastantes vezes nos últimos tempos. A minha resposta é sempre a mesma. Não há uma única pessoa que tenha algo 100% sustentável que toda a gente queira agarrar, ou materiais para fazer isto. Repara, toda a gente quer pranchas mais leves. Eu trabalho com Epoxy, EPS, o mais leve e menos poluente (ou não, isto é algo que ainda estou para ver). A nível de química, o epoxy em si, pessoas que trabalham com epoxy passado algum tempo têm alergias na pele e não podem trabalhar mais com aquilo. Há muitos “senãos” no epoxy também. A espuma a mim irrita-me muito mais a shapear, a nível de tosse, de respiração.
O lixo do epoxy, os restos de resina, de fibra é tudo lixo. As pranchas de poliéster e poliuretano fazem muito lixo. O nosso mercado gera muito lixo. A realidade é que as pessoas estão a andar com pranchas de foam, de EPS, de poliéster, bem shapeadas pelos melhores shapers do mundo. Querem passar para madeira, novamente? Madeira também faz falta. Quer dizer, é difícil encontrar material.
Estou a trabalhar num projeto com um gajo e ele quer fazer tudo natural, mas não acredito. Estou a ver se a resina dele, que não é branca, vai trabalhar bem. Agora, se não for branca ou transparente ninguém vai curtir ter uma prancha amarela. É um ponto muito chato a sustentabilidade. Acho é que os restos de material da indústria são muitos. Os restos da máquina ou do shape à mão, o resto das fibras, o resto das resinas, quando sólidas. Podia haver uma forma gastar esses restos. Seja por baixo do alcatrão das estradas, ou o pó de shape misturado com cimento para cimentar, não sei... Podia haver uma boa maneira de envolver em coisas que não vamos ingerir. Envolvê-los em prédios em vez de os pôr em lixeiras. Mesmo separados esses restos vão ser sempre lixo. É o que eu sempre digo, o próprio surfista não quer andar para trás, ter um material que é mais lento, mais pesado, mais amarelo. É difícil... Por mais que um gajo queira é difícil de engolir como vamos fazer isto. Espero que um gajo venha com uma grande ideia. Não sou eu quem vai criar esta nova fórmula não poluente. Está fora do meu alcance.

 

*Nick à direita e Miguel Katzenstein à esquerda fundaram a Semente Surfboards. Aqui na Nauticampo em 1984.

 

 

 

"Tem de se passar a chama, como nas Olimpíadas.

As histórias têm de ser contadas..."

 

 

 

 

Queres comentar a afirmação – a cultura e história de um povo é transmitida e trabalhada de geração em geração por pessoas. Sem isso não há cultura que se preserve e isso pode levar ao desmoronar de uma civilização!

Nick Uricchio: Para mim é o storytelling. É muito importante em qualquer civilização haver storytelling. Tem de se passar a chama, como nas Olimpíadas. As histórias têm de ser contadas. É preciso haver uma geração que ainda queira assegurar a cultura do surf. Isto é super importante. Adoro os livros antigos. Acho que todos nós no surf, mesmo em Portugal, temos histórias para contar. Outro dia fiz um live com o Marcos Anastácio e ainda contei umas cenas que nem ele sabia. É importante que haja comunicação. Hoje em dia temos o Instagram e os diretos e até é bom. Os jovens estão sempre ligados nisso e podemos alcançá-los e partilhar com eles alguma cultura.

 

 

Artigo da Espaço Magazine Nº8 - Fevereiro de 1980

 

 

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