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quinta-feira, 30 abril 2020 14:24

"Há um risco dos internautas perderem o interesse pelos filmes de surf"

Diz Eduardo Vento, videógrafo Português, que tem vindo a trabalhar com alguns surfistas de renome Internacional e Nacional...

 

A Surftotal apresenta hoje Eduardo Vento, surfista desde os 10 anos de idade, apaixonado pelo surf e seu estilo de vida, assim como pelos filmes de surf. Eduardo formou-se em Londres, onde tirou uma licenciatura na área do Cinema e tem vindo a trabalhar com alguns surfistas de renome Internacional e Nacional.

Vamos ficar a conhecer Eduardo através da entrevista abaixo:

 

 

 

"se não houver um shift na criação de filmes de surf, os internautas

haverão de se afastar ou de perder algum interesse

pelo mundo do surf..."

 

 

 

 

 

 

 

Surftotal: Eduardo conta-nos como o surf entrou na tua vida?

O surf entrou na minha vida desde cedo e diria que o meu pai foi o principal impulsionador. Lembro-me da primeira vez em que me pus em pé em cima de uma prancha de surf, foi no guincho e tinha eu 10 anos, a sensação de ser empurrado por uma onda ficou bem marcada na minha cabeça e desde então tornou-se uma cena regular. Juntamente com esta lembrança, não posso deixar de mencionar um grande brother, Zé Ferreira, que fez parte do meu crescimento como pessoa e surfista. Estudámos na mesma turma desde o infantário até ao 9º ano e lembro-me sempre que a paixão dele pelo surf era contagiante, para não falar do talento inato que ele tinha. Foram várias as manhãs a acordar bem cedo para ir mandar aquelas surfadas épicas na linha, juntamente com ele e o meu pai que nos levava sempre, passando na casa de mais amigos que também se juntavam.

Surftotal: Quais as grandes diferenças na tua vida antes e após teres começado a fazer surf?

Devido ao facto de  ter começado a surfar desde pequeno, eu diria que o surf fez sempre parte da minha vida, pois teve um papel importante no meu crescimento e desenvolvimento como pessoa. Das coisas mais difíceis que fiz foi afastar-me dele durante 6 anos, quando fui viver para Inglaterra, onde fiz a universidade de Video and Film Production e depois fui trabalhar para uma produtora de vídeo em Londres. Por um lado ganhei um bom conhecimento a nível de técnica e experiência no mundo de filmmaking mas por outro afastei me muito do surf. Lembro me do desespero que era para ir ver o mar quando vinha de visita a Portugal e a necessidade de surfar o máximo que conseguia durante esses dias. Voltei a Portugal, fazem agora 4 anos e sinto que ainda há muitas saudades para matar deste mar.

 

 

 

 

"Não posso deixar de mencionar um grande brother, Zé Ferreira,

que fez parte do meu crescimento como pessoa e surfista..."

 

 

 

 

 




Surftotal: Quais as principais diferenças que encontras no mundo do surf, na altura que começaste a surfar comparando com o momento presente?

Quando comecei a surfar lembro-me que havia muito menos jovens a surfar e que ainda era um desporto relativamente caro de se praticar. Não me esqueço do sacrifício que foi juntar a minha mesada para conseguir comprar a minha primeira pranchinha nos tempos em que ainda havia a surf shop Energia Tropical. Estimava muito aquela prancha e por isso ganhei ainda mais gosto pelo surf por causa daquela conquista na época.
Sinto que com o passar dos tempos o surf cresceu muito e tornou-se mais acessível. Nos tempos de hoje noto que existem muitos mais jovens a praticar e que o nível de surf que eles trazem é muito mais power do que na minha juventude. Também gosto de ver que hoje em dia o surf é um desporto inclusivo e que já existem até associações em Portugal que utilizam o surf como um meio de inclusão social como por exemplo a Wave by Wave ou a Surfaddict que a meu ver tem feito um trabalho incrível.

Surftotal: E o vídeo como foi que começaste a ligação ao mundo multimédia?

O video também foi algo que cresceu comigo, a minha família é toda do Brasil, os meus país mudaram-se para Portugal há 30 anos atrás e eu por sua vez já nasci aqui. Lembro me que desde pequeno estava habituado a ver os meus pais com uma camera de video na mão a registar vários momentos para depois serem partilhados com o resto da família no Brasil.
Em vários destes momentos sempre tive uma certa curiosidade de agarrar e brincar com a câmara, foi então que com 10 anos o meu pai emprestou-me sua câmara de vídeo dele pela primeira vez e ensinou me como fazer stop-motion. Desde então foi sem parar, o vídeo tornou-se um meio de diversão e expressão para mim. Aos 14 comprei a minha primeira câmara de video que era uma Panasonic mini-dv, com o objectivo de gravar os meus amigos a surfar e a andarem de skate. Foi também nesta época que a edição de vídeo entrou na minha vida e trouxe me uma melhor maneira de me expressar através dos meus vídeos. Desde pequeno era uma criança hiperativa e mais tarde vim a ser diagnosticado com défice de atenção (ADHD), felizmente foi através do vídeo que encontrei um método de expressão e de obter bons resultados. Foi mais tarde no liceu em que finalmente realizei que vídeo poderia ser a minha saída ideal como fonte de rendimento e comunicação.

 

 

 

 

"Com 10 anos o meu pai emprestou-me a sua câmara de vídeo

pela primeira vez

e ensinou-me como fazer stop-motion"

 

 

 

 



Surftotal: Porquê este teu interesse e ligação com os videos de surf?

Desde sempre quando via filmes de surf, sempre que apareciam as cenas filmadas de dentro de água eu ficava fascinado com os visuais. Mas lembro me como se fosse hoje de quando vi pela primeira vez o opening scene do “Billabong Odyssey”, aquele fascínio ao ver a sequência visual onde o Mike Parsons se levanta na sua prancha de tow-in para dropar aquela bomba em Jaws. Acho que desde ai fiquei com o bichinho com a cena de filmar surf de dentro de água. Naquela época qualquer material para gravar de dentro de água era muito caro e de difícil acesso, portanto comecei por filmar algumas sessions de surf com os meus amigos em que eu ficava do lado de fora. Rapidamente dei me conta que preferia estar dentro de água a gravar e a viver o momento com eles. Portanto esperei e juntei dinheiro para comprar a minha primeira caixa estanque à coisa de um ano atrás e finalmente realizar um sonho que tinha a crescer em mim desde criança.

 

 

 

 

 

 

"Ao chegar à Cave dei-me conta que o mar estava bem grande

e mais pesado do que eu imaginava.

Tive ali um momento de reflexão..."

 

 

 



Surftotal: Tens feito trabalhos com alguns surfistas de renome internacional e nacional, queres nos contar dois trabalhos em especial que te deram especial gosto fazer? Um com um surfista luso e um com um surfista internacional

Diria que dos trabalhos mais marcantes devido ao challenge físico e psicológico foi no ano passado. Numa manhã cinzenta de Outubro o Nic Von Rupp chamou-me para filmar os surfistas Torrey Meister e o Albee Layer a surfarem na Cave, lembro me que sai disparado de casa e nem olhei as previsões naquele dia. Ao chegar à Cave dei me conta que o mar estava bem grande e mais pesado do que eu imaginava. Tive ali um momento de reflexão grande mas que acabei por ceder ao ver a energia positiva e vontade de surfar da malta, não posso deixar de mencionar também o waterman fotógrafo Alan Vangysen que foi um grande motivador ao entrar naquele mar sem grandes hesitações. Para mim foi das experiências mais marcantes, conseguir chegar ao outside a nado com a minha caixa estanque que pesa aproximadamente 5 Kg e conseguir capturar algumas ondas a serem apanhadas pelos dois surfistas havaianos.

A nível nacional o Miguel Blanco foi sem duvida dos surfistas que mais puxou por mim e que me chamou para filmar nos melhores mares que já presenciei. Foram várias as manhãs a acordar às 5 da manhã para viajar para a Ericeira ou Peniche em busca dos melhores spots.  Diria que dos projectos mais marcantes foi uma sessão épica que filmamos nos Coxos e apanhamos um dia clássico em Dezembro do ano passado. Foi a sessão mais longa que fiz e lembro-me de ficar aproximadamente 5 horas dentro de água sem pausas. No final resultou num vídeo bacano. Tive o prazer de colaborar com um mestre de filmes de surf, o Hugo Almeida, que me cedeu imagens de fora de água daquela session, que vieram a dar uma boa dinâmica ao meu filme. Este dia para além de uma grande conquista a nível pessoal, foi também um grande aprendizado a nível de gestão de energia a filmar dentro de água.

 

 

 

"Sinto que por vezes em alguns filmes de surf falta criar

uma linguagem visual e de storytelling

mais criativa..."

 

 

"FAIL" featuring Alan Watts from Eduardo Vento on Vimeo.

 

 

 




Surftotal: O que achas que tem faltado nos videos de surf para cativarem as pessoas e serem uma mais valia para o meio do surf?

Sinto que por vezes em alguns filmes de surf faltam criar uma linguagem visual e de storytelling mais criativa. Eu vejo que a narrativa por vezes é esquecida, faltando assim um elemento essencial no que toca a passar uma realidade e destacando momentos marcantes num filme. Acima disso, sinto a falta de ver a verdadeira realidade do surf, muitas vezes não é revelado o lado mais humano em que temos as manobras falhadas, os dias de fracasso em que um surfista acorda às 5 da manhã e ao chegar ao spot não há ondas, o frio que passamos ao vestir os fatos pela manhã nos estacionamentos, o que se passa no outside enquanto um surfista espera a onda, o hype de ver a emoção de um amigo a observar outro amigo a acertar uma manobra, … Estes são os caminhos que levam aquele tubo perfeito, aquele aéreo inesquecível, aquele dia clássico de surf. Mostrar o esforço, a dedicação e a paixão por parte dos surfista cria muito mais empatia e valor ao surf na minha perspectiva e com isto o público que não seja do meio, tem a oportunidade de entender melhor e conseguir experimentar uma sensação nova através da visualização de um filme. No meu ultimo filme “Fail” tentei justamente mostrar uma parte do surf que por vezes é suprimida por se considerar um fracasso ou simplesmente menos interessante, a meu ver nada mais é do que o caminho para a “perfeição’’.

 

 

 

"Cativar a atenção dos espectadores é algo bem mais difícil de fazer hoje em dia,

devido ao overload de informação visual que temos constantemente."

 

 






Surftotal: Há demasiada produção de video nos dias de hoje? Achas que se tem vulgarizado demasiado os conteúdos de surf em video?

Sem dúvida, hoje em dia qualquer pessoa é capaz de fazer um vídeo, basta ter um smartphone e um software básico de edição, muitos smartphones até já filmam dentro de água. Torna-se difícil de criar algo novo e que seja criativo até porque cativar a atenção dos espectadores é algo bem mais difícil de o fazer hoje em dia, devido ao overload de informação visual que temos constantemente. Se nos limitarmos a mostrar imagens bonitas e que não tenham alguma história por de trás ou personalidade a nível estético, acho que podemos correr o rico de perder o interesse dos espectadores no que toca a filmes de surf.

Surftotal: Os internautas estão cada vez menos ou mais exigentes no que diz respeito a conteúdos de surf? Qual a tua perspectiva?

Sim. Como referi na pergunta anterior, acho que se não houver um shift na criação de filmes de surf, os internautas haverão de se afastar ou de perder algum interesse pelo mundo do surf. Penso que há uma grande necessidade de instigar novas sensações e visuais refrescantes de forma a cativar o público ao verem um filme de surf. Acho que um exemplo perfeito no passado dos filmes de surf foi o revolucionário “The Endless Summer” realizado pelo grande realizador americano Bruce Brown, este filme esgotou várias bilheteiras de cinema na numa época em que ninguém acreditava que um filme de surf pudesse ser interessante de se ver. A meu ver, este filme é um filme completo devido à sua linha de storytelling bastante criativa e diferente do normal em que temos uma voz off a narrar as cenas com um toque de comédia durante todo o filme. A meu ver, para além de uma excelente cinematografia e soundtrack, o grande "achievement" que o realizador americano conseguiu, foi em criar uma empatia entre o espectadores que não entendiam muito de surf e ao mesmo tempo agradar à comunidade de surf através de uma história em que os personagens principais procuravam um verão infinito à procura de spots de surf pelo mundo a fora.

 

 

 

"Acho que o vídeo é um grande meio de comunicação

que permite a preservação da cultura do surf..."

 

PAI E FILHO (Father and Son) from Kieran Hodges on Vimeo.

 

 



Surftotal: A cultura do surf tem passado de geração em geração e ainda existe na tua opinião? Em que medida os videos de surf podem ajudar nessa preservação e difusão dessa cultura e life style?

Total, o meu pai é um exemplo para mim de uma geração mais antiga de surfistas, agora ele tem 61 anos e ainda continua a surfar, isso para mim é uma grande inspiração a nível de surf, espero chegar à idade dele e conseguir continuar a surfar. À coisa de 1 ano atrás um grande amigo meu e por sua vez um talentoso filmmaker que gosto de trabalhar com, Kieran Hodges, veio a Portugal gravar um documentário sobre a relação “Pai e Filho” que temos. O filme começa no surf e acho que consegue mostrar bem a importância que o surf tem na nossa vida.
Em relação a Portugal eu acho que a cultura do surf tem passado de geração em geração e que aqui se preserva bastante bem o lifestyle do surf. Acho que o video é sem duvida um grande meio de comunicação que permite a preservação desta cultura e também de educar as pessoas sobre tal conseguindo assim passar emoções e mensagens que por outros meios é mais difícil por vezes. Juntamente com a cultura acho que nos devemos todos focar na preservação do nosso meio ambiente, é o dever de cada surfista e de todos os amantes do mar, poder cuidar e entender como melhorar as condições dentro dele. Como filmmaker, um dos meus maiores objectivos para além de inovar a nível da linha estética e narrativa, é também focar em trazer uma nova visão que possa contribuir para divulgação de novas histórias e personalidades que habitam neste mundo em que vivemos.




 

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