Zé Beto à direita aquando do Campeonato Nacional de Surf Masters que decorreu nas Praias do Porto e Matosinhos Zé Beto à direita aquando do Campeonato Nacional de Surf Masters que decorreu nas Praias do Porto e Matosinhos

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sexta-feira, 15 maio 2020 15:04

"Não há uma politica nacional para as modalidades de deslize, encabeçadas pelo surf"

Quem o diz é Zé Beto Miranda do Clube de Surf do Porto...

 

Na sequência da notícia da Federação Francesa de Surf e das possibilidades de abertura das praias naquele País, certamente coordenada com as diversas autoridades Francesas, FFS e clubes. E por que em Portugal a Federação Portuguesa de Surf também ter feito uma proposta para utilização das ondas, fomos saber como estão os Clubes de Surf em Portugal. Estes desempenham um papel importante por estarem no terreno, conhecerem bem a área, atletas, free surfers, hábitos, costumes e necessidades. Na verdade do ponto de vista externo com o boom das escolas de surf, os clubes “apagaram-se” um pouco.

Quais serão os motivos?  Pouca competição a nível colectivo?
Pouca representação local?
Falta Dirigentes?
Fomos tentar saber junto de alguns dos principais Clubes de Surf a nível nacional.

 

 

Responde o Clube de Surf do Porto através do seu Presidente da Direcção Zé Beto Miranda.

 

 

 

 

 

"Os clubes que trabalham melhor são os que tem os seus Municípios a apoiá-los."

 

 

 

 

 

Surftotal: Nos últimos anos tem-se verificado menor actividade e visibilidade dos Clubes, concordas? Que razões existirão, pouca competição a nível colectivo?

SCP(ZÉ Beto) - Os clubes de surf sofrem da mesma crise do associativismo em geral. Costumo dar o exemplo da forma mais básica de associativismo: um condomínio. Hoje em dia é cada vez mais raro os condomínios serem administrados pelos condóminos, entregando a administração a empresas.
No surf em particular, o associativismo tem padecido do mesmo problema. Dado se tratar de atividades não lucrativas e os dirigentes não serem remunerados, tem-se verificado que as pessoas com potencial para dirigentes, seguiram com profissões ou negócios ligados ao surf, como escolas, empresas de organização de eventos e turismo. É portanto uma crise de carolas.
Há clubes a trabalhar muito bem em Portugal e esses tem visibilidade. Há outros que vão e vem ligados a escolas, que de clube só tem o nome.                                                                                                                                                                                                            
Mas a maior crise dos clubes vem da própria mentalidade das pessoas, neste caso dos surfistas. Noto que cada vez mais as pessoas querem tudo da sociedade e nada contribuir para ela. Os surfistas vêm os clubes e a federação só para quem precisa de entrar em campeonatos. É incrível como não entendem que um clube é a associação de todos eles e que, não organiza apenas campeonatos, olha por, defende os interesses da comunidade e representa-a perante as autarquias, capitanias, federação, etc. Quando a FPS com a ANS e WSL lançaram o cartaz “On a 3 de Maio” todos o  partilharam nas redes sociais… sentiram-se representados por estas entidades mas na verdade 95% desses surfistas não tem qualquer ligação a elas. Outro exemplo é o movimento #diznãoaoparedão: transformem-no em associação e vão ver quantos se associam… quase ninguém, estou certo!

 

 

 

"Há clubes a trabalhar muito bem em Portugal e esses tem visibilidade.

Há outros que vão e vem ligados a escolas, que de clube só tem o nome..."

 

 

 

 

Surftotal: Como tem sido a vida dos Clubes nos últimos tempos?

SCP(ZÉ Beto) - Já respondi em parte a essa pergunta no ponto anterior. Posso acrescentar que a vida está cada vez mais difícil. Não há uma politica nacional para as modalidades de deslize, encabeçadas pelo surf. Com a proliferação das entidades lucrativas em torno da modalidade, as taxas, licenças, burocracias atingiram proporções ridículas. Dou um exemplo: queres fazer um campeonato intersócios, seja ele pequeno ou grande, para infantis ou open, actualmente não te chegam mil e quinhentos euros. Cada capitania cobra e exige o que quer, não há uma norma nacional. E estas entidades antigamente não cobravam nada. E hoje cobram o mesmo a um clube por um campeonato sem lucro e a uma empresa organizadora de eventos que, obviamente, tem o lucro como objectivo.
 

 

 

 

 

"Em relação à FPS, nota-se um distanciamento crescente em relação aos clubes..."

 

 

 

 

Surftotal: Tem havido ou está previsto algum tipo de contacto e/ou apoio de entidades desportivas a nível local e nacionais?

SCP(ZÉ Beto) - Os clubes que trabalham melhor são os que tem os seus municípios a apoiá-los. A Câmara Municipal do Porto incluiu este ano o surf nas modalidades a apoiar, pelo que estamos optimistas em relação ao futuro. Infelizmente esta pandemia veio adiar tudo.
Em relação à FPS, nota-se um distanciamento crescente em relação aos clubes. A entrega da organização da Taça de Portugal de Surfing deste ano a uma empresa sem sequer haver um concurso, é um exemplo disso. Não concordo com o Necas quando diz que o futuro é uma associação de clubes. Essa associação já existe, é a FPS e os clubes ainda mandam nas assembleias gerais.
A meu ver, anda toda a gente com os olhos no topo da pirâmide (da competição) e ninguém vê os alicerces a ruir…
A Federação foi claramente a reboque, se não mesmo substituída pela ANS e WSL nesta recente questão do “voltar ao mar” e os clubes também estão a ser substituídos pelas academias de surf. Parece que ninguém reparou que os apoios do Estado às federações são em função do número de atletas federados e não de atletas de elite na WSL.

 

 

"Quero terminar com um profundo lamento, lamento esse pela falta de apoio dos portugueses

durante o período de confinamento obrigatório, ao Frederico Morais,

ao Vasco Ribeiro, ...."

 

 

 

Surftotal: Sabendo que todas as praias têm características diferentes, considera que clubes deveriam estar de alguma forma envolvido na abertura das praias?

SCP(ZÉ Beto) - Obviamente que sim. Um exemplo muito simples: A proposta da ANS, WSL e FPS para voltar ao mar baseava-se em vários pressupostos e num deles era o de haver corredores de acesso ao mar. Esta proposta tinha data de 23 de abril e propunha o regresso ao mar dia 3 de maio, que acabou por ser dia 4. Vá lá que o governo não deve ter ligado muito a esta proposta senão ainda estávamos à espera dos ditos corredores e de voltar ao mar. E quem os fazia, onde ficavam, quem discutia com as autoridades locais? Estas 3 entidades iam de praia em praia, a falar com os autarcas e capitanias de cada praia?
Mas não! Os clubes não foram contactados.
Reparem que a 23 de abril é noticiado que João Paulo Rebelo, secretário de Estado do Desporto e da Juventude enviou uma carta a todas as federações desportivas a solicitar que enviassem planos de retoma até ao dia 24 de abril de 2020; No mesmo dia 23 de abril, é divulgado nas redes sociais e meios de comunicação social um cartaz com uma carta conjunta da Federação Portuguesa de Surf, Associação Nacional de Surfistas e World Surf League Europa, ao Governo, ao Presidente da República e à Assembleia da República sob o título VOLTAR AO MAR A 3 DE MAIO. Porquê a ANS e a WSL? Já estava feita por estas a proposta e a FPS foi a reboque? Precisavam estas da FPS para terem legitimidade? Quantos federados dão estas entidades à FPS? Quantos dão os clubes?
Estão a perceber a falta de visibilidade dos clubes?

 

 

Surftotal: Algo mais a dizer?

SCP(ZÉ Beto) - Quero terminar com um profundo lamento, lamento esse pela falta de apoio dos portugueses durante o período de confinamento obrigatório, ao Frederico Morais, ao Vasco Ribeiro, e a todos (poucos) atletas com estatuto de alta competição que se viram coagidos a darem o exemplo de não surfarem durante esse período quando o podiam fazer com toda legitimidade. Quando o Kikas ganha e dedica a vitória aos portugueses empunhando a Bandeira Nacional com orgulho, é uma vitória de todos os portugueses! Quando precisam de treinar, os portugueses criticam e pedem exemplos de confinamento…

E ninguém veio a publico erguer a voz e defende-los dizendo: TREINEM! TREINEM POR TODOS NÓS PARA QUE A VOSSAS VITÓRIAS SEJAM NOSSAS TAMBÉM!

 

 

"E ninguém veio a publico erguer a voz e defendê-los dizendo:

 

TREINEM! TREINEM POR TODOS NÓS PARA QUE A VOSSAS VITÓRIAS SEJAM NOSSAS TAMBÉM! "
 

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