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terça, 19 maio 2020 15:32

"Toda a gente quer recuperar o tempo perdido, voltar a surfar, comer fora e consumir..."

José Gregório fala sobre a situação actual do mercado do Surf e muito mais...

 

 

José Gregório, ex-campeão nacional de surf e responsável máximo da Quiksilver/Boardriders em Portugal, falou em exclusivo à Surftotal sobre alguns dos temas mais importantes da actualidade do Surf - pré, durante e Pós Covide.

 

 

 

"O medo que esta pandemia gerou nos mercados

e hábitos das pessoas foi tremendo para a nossa industria..."

 

 

 

Loja Boardriders Ericeira

 

 

 

Surftotal: Grego parece que a situação finalmente está a voltar à normalidade, após o período de confinamento, Como vês o presente e futuro do mercado do surf em Portugal e um pouco por toda a Europa?

José Gregório: O medo que esta pandemia gerou nos mercados e hábitos das pessoas foi tremendo para a nossa industria. Ao principio ninguém sabia bem o que aí vinha e gerou-se o pânico um pouco descontrolado. Os próprios governos foram tomando medidas cautelosas porque estávamos a passar por algo completamente novo neste mundo globalizado e dependente do mercado livre. Com o passar dos dias foi ficando cada vez mais claro que os danos que estávamos a impor a economia iriam ser incomportáveis, e foi-se preparando a reabertura do mercado, lojas, restaurantes etc.                                                                                                                                

Agora parece que estamos a viver uma nova fase, onde “foram abertos os portões da cadeia” e toda a gente quer recuperar o tempo perdido, voltar a surfar, comer fora e consumir. No entanto há menos dinheiro disponível, e temos ainda muita gente e empresas que se estão a aproveitar dos regimes especiais de Lay-off e apoios para não trabalhar e ainda não voltou o turismo, e claro que isto afecta todos os negócios. Eu estou optimista que a abertura das fronteiras vá trazer uma vaga de turismo Europeu a Portugal, às nossas praias e às nossas ondas, e o nosso mercado possa vir a recuperar num futuro próximo. Metade da população mundial vive juntos às costas, e a outra metade quer lá viver. E todas estas pessoas acabam por consumir os nossos produtos. Por isso, e apesar de estarmos a sofrer muito agora, se a nossa indústria se adaptar á procura que o consumidor exige podemos sair bem desta crise, dentro de 1 ou 2 anos. Houve uma quebra grande de vendas pois os chamados consumidores não podiam sair à Rua.

 

 

 

"O surf está hoje em dia para Portugal como o ski está para os Alpes..."

 

 

 

 

Loja Boardriders Ericeira - vista interior

 

 

Há quem diga que tem havido uma explosão de consumo de material técnico de surf após o confinamento. Confirmas esta informação?

José Gregório: Sejamos realistas, a vendas passaram de 100 para 1, todas as lojas do pais fecharam portas, só o online tentou vender alguma coisa, mas até isso foi irrisório porque o desporto estava fechado, não se podia surfar. Nos primeiros dias da re-abertura aconteceram algumas vendas de técnico. É normal, o surf é como uma droga e a maior parte da malta estava a ressacar ir para dentro de água. O surf está hoje em dia para Portugal como o ski está para os Alpes, e com mais ou menos crise já faz parte da nossa cultura, não vai desaparecer. Nos próximos 100 anos este mercado tem tudo para crescer. Exatamente como o mercado da neve que cresce todos os anos de do final do seculo 19.

 

 

 

 

"A nossa industria caiu no estereótipo do politicamente correcto.

Para mim esta é a principal razão da nossa queda..."

 

 

 

 


 
O que pode fazer a industria do surf para voltar a ter o hipe dos anos 90?

José Gregório: A nossa industria caiu no estereótipo do politicamente correcto. Para mim esta é a principal razão da nossa queda. Deixamos de ser diferentes, deixamos de cativar os miúdos novos a sonharem em ser surfistas irreverentes. Hoje em dia o surf é um desporto de sociedade como outro qualquer. Aquilo que me fez apaixonar por este modo de vida foram slogans como o da Quiksilver – “If you can’t rock and rol don’t fuckin come”.
Precisamos de nos reinventar, e voltar a ser diferentes, sem medo de chocar este ou aquele. É isso que os miúdos mais jovens entre os 14 e 25 anos gostam.

 

 

 

"Rapidamente percebi que o surf estava a ser discriminado,

porque podia-se correr e andar de bicicleta entre outras coisas,

 

mas não podíamos fazer o nosso desporto..."

 

José Gregório a preparar a entrada no tubo - Click por Ricardo Bravo

 

 


 
Vamos voltar um pouco atrás e falar dos momentos de tensão que houve da comunidade surfista durante o confinamento. Como vês a reação das pessoas que quando souberam que os surfistas olímpicos podiam treinar deixaram as redes sociais cheias de criticas negativas?

José Gregório: Logo no principio as redes socias e o whatsapp andavam muito activos com toda a gente a dar a sua opinião, e que é normal em situações extremas onde a sociedade se divide. Eu pessoalmente também tive medo ao principio, mas depois fui tentando buscar informação fidigna para poder tirar as minhas conclusões e não entrar só pelas noticias sensacionalistas do numero de mortos e desgraças que a comunicação social gosta de publicitar. Rapidamente percebi que o surf estava a ser discriminado, porque podia-se correr e andar de bicicleta entre outras coisas, mas não podíamos fazer o nosso desporto. Achei uma injustiça e comecei a juntar algumas personalidades e entidades como o João Capucho, o Xiquilim, o Spinola e o Aranha para tentarmos voltar à agua sem sermos considerados criminosos. Eu diria que tivemos uma divisão de 50/50 na comunidade surfista, e na sociedade em geral. Estes momentos de tensão e tempestade “servem para ver a tripulação que vai no barco”.  Mas ninguém pode ser juiz de ninguém para julgar os outros. O pior mesmo são os bufos e xibos que aparecem nestas alturas, uns por falta de atenção, outros por graxa que andaram a tentar dar as autoridades, enfim...cada um com a suas razoes. Mas ficámos a saber quem são e que não se pode confiar nesta gente.
(Um Xibo é alguém que está a lutar contigo muna trincheira e te mata no dia seguinte para salvar a sua pele).

 

 

"No final percebi que quase 90% dos surfistas que conheço

foram ao surf durante o confinamento..."

 

 

 

Loja Boardriders Ericeira

 

 


 
No final percebi que quase 90% dos surfistas que conheço foram ao surf durante o confinamento, houve talvez 5% que se arrependeu de falar demais no FB e já não foi por vergonha e 5% de fundamentalistas. Ainda por cima deram altas ondas neste período, os verdadeiros surfistas iam todos ao mar e andavam a fugir da policia. Ouvi histórias que me deixaram feliz por ver que o nosso desporto ainda está vivo. Conheço um amigo Francês que fugiu para dentro do Pinhal a norte de Hossegor cavou um buraco e tapou-se com a caruma do pinheiro até o helicóptero ir embora, quando saiu do buraco ás 21.30h já andavam os veados á volta dele e depois ainda teve de correr 10km à noite de volta a Hossegor, a mulher pensava que ele já tinha morrido ahahah.

 

 

 

"A comunidade continuava dividida, só se uniu quando

as entidades divulgaram o documento que fizemos..."

 

 

 


 
 
Até que houve uma altura em que a comunidade sentiu um sinal de união. Conta-nos como se conseguiu isso?

José Gregório: A comunidade continuava dividida, só se uniu quando as entidades divulgaram o documento que fizemos. A partir dai perceberam que mais vale estarmos juntos que a fazer criticas uns aos outros.

 

 

 

 

"Viram-se algumas empresas, no caso dos shoppings

por exemplo actuar como verdadeiros tubarões..."

 

 


 
Sentes que a comunidade de surf em Portugal saiu mais forte e unida de toda esta situação?

José Gregório: Não, fala-se muito disso na sociedade em geral, que o Coronavirus ia mudar as pessoas e atitudes, mas o que se vê na realidade é cada um e cada empresa a lutar por si. Faz parte da natureza humana sermos assim, por vezes lideres muito carismáticos conseguem inverter a tendência e criam-se sociedades e impérios fortes, mas sempre dentro de uma janela limitada de tempo, depois volta tudo a sobrevivência pessoal.
Viram-se algumas empresas, no caso dos shoppings por exemplo actuar como verdadeiros tubarões, quando há sangue ainda mordem mais. 

 

 

 

"O que se vê na realidade é cada um e cada empresa a lutar por si..."

 

 

 


 

E achas que aprendemos a lidar melhor com este tipo de situações?

José Gregório: Essa é uma boa pergunta, porque quando falamos das direções que as massas tomam nunca sabemos se são as melhores. O que acaba por acontecer é o caminho a seguir por todos ser o viral, que a multidão escolheu, e não o mais correcto. Vamos ver colectivamente qual será a lição que daqui foi tirada e qual a resposta a um acontecimento semelhante no futuro.

 

 

Loja Quiksilver Carcavelos

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