Afonso Silva - Paixão entre a resina e a fibra Afonso Silva - Paixão entre a resina e a fibra Click por @gabrielaaboletaa quinta-feira, 15 janeiro 2026 23:35

Afonso Silva aka A.S.B. : “Restaurar uma prancha é devolver-lhe a alma”

Entre resinas, fibras, histórias e pranchas que atravessam gerações...

 

Entrevista exclusiva SurfTotal

Na Praia da Fonte da Telha, entre resinas, fibras, histórias e pranchas que atravessam gerações, existe um espaço onde o tempo abranda e o surf ganha outra dimensão. Afonso, conhecido pelo seu trabalho minucioso na reparação e restauro de pranchas de surf, construiu um percurso pouco comum, guiado pela curiosidade, pela obsessão pelo detalhe e por um profundo respeito pela história do surf.

Desde muito novo ligado ao mar e à cultura surf da Fonte da Telha, Afonso transformou uma paixão quase obsessiva em profissão. Hoje é procurado por surfistas de todo o país — e não só — para trabalhos que vão muito além de uma simples reparação: restauros históricos, pranchas partidas ao meio, reforços técnicos e verdadeiras peças de museu.

A SurfTotal esteve à conversa com o Afonso numa entrevista exclusiva, onde se fala de origens, aprendizagem, indústria, cultura surf, colecionismo e do prazer raro de devolver vida a algo que muitos já dariam como perdido.

 

"O surf não é só um desporto, é um modo de vida. Somos uma tribo e devíamos ser mais unidos,

para que o surf cresça de forma saudável sem perder a sua essência..." 

 

Coisas simples fazem a perfeição , mas a perfeição não é algo simples

Como nasceu a tua ligação ao surf e às pranchas?

Reparar pranchas de surf sempre foi uma paixão e um sonho desde muito novo. Passei grande parte das minhas férias de verão na Praia da Fonte da Telha com os meus avós e acabei por estar sempre muito ligado ao mar.

A minha mãe e a minha tia, nos anos 80, também frequentavam a Fonte da Telha e criaram um grupo de amigos onde quase todos eram surfistas. Toda essa cultura, o lifestyle e o ambiente acabaram por influenciar a minha infância e mais tarde despertaram em mim o gosto pelo surf.

Comecei a surfar com sete anos. Quando não havia ondas, sobrava tempo para a criatividade. Sempre tive muito jeito para artes visuais, desenho e pintura, e também para resolver problemas. Quando não percebia alguma coisa, estudava até encontrar a solução.

 

O surf neste espaço está guardado e preservado com Alma !

Quando é que percebeste que querias reparar pranchas?

Tinha 11 anos quando vi um rapaz da minha idade a deitar uma prancha ao lixo porque estava partida, com o nose separado. Disse-lhe que ficava com ela para decoração. Guardei essa prancha durante três anos e, ao fim desse tempo, decidi repará-la.

Foi aí que mergulhei no mundo das resinas e da fibra de vidro. Não sabia nada. Comecei do zero, com o pouco que se lia em revistas e o que existia na internet, que era muito limitado. A área das reparações sempre foi muito fechada em termos de informação.


Como foi esse processo de aprendizagem?

Foi um processo muito autodidata. Estudei hidrodinâmica, química, aplicações da fibra de vidro, ouvi muita gente mais velha e anotava tudo. Usava quase um método científico experimental: registava processos, erros, resultados, e fazia sempre uma autoanálise no final.

Alguns achavam que eu era maluco. Mas isso ajudou-me a evoluir. A primeira prancha que reparei deu-me semanas de trabalho e refiz o nose umas cinco vezes até ficar como queria. Quando ficou pronta, percebi que queria fazer mais. Recuperar algo “fora de jogo” e devolvê-lo ao mar é algo viciante.

Um sonho tornado realidade !

Durante muito tempo reparaste pranchas sem cobrar. Porquê?

Porque fazia pela arte, não pelo dinheiro. Sempre gostei genuinamente do que faço. Durante muito tempo reparei pranchas de amigos e conhecidos de forma gratuita, apenas para aprender e aperfeiçoar o meu trabalho.


Quando é que passaste a profissionalizar-te?

Aos 18 anos decidi interromper a escola e entrar no mundo profissional. Sempre disse a mim próprio que nunca faria algo de que não gostasse.

Nessa altura surgiu a oportunidade de trabalhar numa das melhores fábricas de pranchas de surf. Entrei como aprendiz de um grande laminador, não como reparador, o que na altura me deixou frustrado — mas hoje sei que foi o melhor que me aconteceu.

Aprendi a trabalhar com resinas, fibra de vidro, kevlar, carbono e a perceber tudo ao detalhe. Produzíamos pranchas para surfistas que hoje surfam a Nazaré em condições extremas. A responsabilidade era enorme, porque o nosso trabalho podia pôr vidas em risco.

Onde o tempo fica relativo e a magia acontece!

Como vês a evolução atual do surf e do shape?

O surf vive uma fase cíclica. Muitos shapers estão a ir buscar conceitos dos anos 80 e 90, não por moda, mas porque funcionam. Alguns surfistas procuram cada vez mais pranchas personalizadas, feitas à mão, com atenção ao detalhe, em vez de produção massiva.


O que distingue o teu trabalho hoje?

As pessoas procuram-me muito pelos restauros. Existem poucos a fazê-lo bem. Não cruzo atalhos nem salto passos. Só aceito trabalhos da forma que considero correta.

Tenho clientes que trazem pranchas do Algarve para eu reparar, não por falta de alternativas, mas porque confiam no meu trabalho. Isso obriga-me a querer ser sempre melhor do que na última reparação.


Como o Kelly slater diz “ O surf é como a máfia ! Uma vez dentro… Impossível sair ! “

Há algum trabalho técnico que se destaque?

Sim, o Tail de Carbono. É um reforço nas extremidades da prancha com carbono e um material de absorção de impacto que distribui a força e evita que a prancha rache. Aumenta muito a longevidade.

Também sou muito procurado para reparar pranchas partidas ao meio. Consigo fazê-lo de forma segura, mantendo densidade, flex, torção e rigidez, sem que o surfista sinta diferença dentro de água. E dou enorme importância à estética e aos acabamentos.


Além de reparador, és também colecionador. Como começou isso?

Sempre fui fascinado pela história do surf. Colecionei revistas, filmes, pranchas antigas. As primeiras foram uma SAD e uma Carcavelos Surf, tinha uns 12 anos.

As pranchas antigas despertam-me mais interesse do que as novas. Cada prancha conta uma história, marca uma geração, representa um momento do surf.

 

A coleção de uma vida e a concretização eterna de um sonho

Existe uma prancha especial na tua coleção?

Tenho várias, mas há uma muito especial: uma das 100 pranchas replicadas pela Rusty para celebrar os 30 anos do título mundial do Mark Occhilupo. Só vieram quatro para Portugal.

Guardei-a na parede, mas um dia houve boas ondas na Fonte da Telha. Meti wax e fui surfar. Foi amor à primeira curva. A prancha era mágica.

Mais tarde consegui outra igual e foi com essa que realizei um sonho: conhecer o Occhilupo e ter a prancha assinada por ele. Toda essa história tornou-a a pérola da minha coleção.

Cada prancha conta uma história e um tempo que não volta , mas vive aqui !

Preferes shapear pranchas novas ou restaurar antigas?

Restaurar, sem dúvida. Dá muito mais trabalho, mas também muito mais prazer. É um desafio enorme, exige concentração máxima e obriga-me a pensar como o criador original.

É quase viajar 20 ou 30 anos atrás no tempo. Prefiro demorar mais e ficar perfeito. A perfeição é feita de pequenos detalhes.

Somos do tamanho dos nossos sonhos e nesta sala idealizo todos os sonhos do mundo 

Que planos tens para o futuro?

Gostava de ter um espaço maior, talvez um museu de surf aberto ao público. Gosto de partilhar conhecimento. Tenho pessoas que vêm ao meu estúdio consultar revistas, DVDs, VHS.

O surf não é só um desporto, é um modo de vida. Somos uma tribo e devíamos ser mais unidos, para que o surf cresça de forma saudável sem perder a sua essência.

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