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quinta-feira, 12 novembro 2020 22:39

Crónicas de um surfista de meia idade - Zogt Marc, O Príncipe Herdeiro dos Profundos.

A cada setênio, de uma grande tempestade que encrespa o mar, leva o entrar pela praia dentro...

 

 

*Por Rafael Amorim / crónica numero 08



“(…) it darted like a stupendous monster of nightmares to the monolith, about which it flung its gigantic scaly arms, the while it bowed its hideous head and gave vent to certain measured sounds.” Dagon, H. P. Lovecraft, 1917.


 

 

"Está assente, nos anais das ciências do mar e da sabedoria popular marítima,

 

que após uma forte tempestade segue-se um período de ressaca em que,

 

consoante as marés, o mar demora dias até que encontre o seu equilíbrio natural..."

 

 


Há décadas, senão centenas de anos, as histórias transmitidas de boca em boca e os mais recentes registos meteorológicos e marítimos, dão conta a cada setênio, de uma grande tempestade que encrespa o mar, leva o entrar pela praia dentro, escavando e transformando as dunas em arribas íngremes que, com a sua força e energia, destrói os amontoados artificiais de pedra que o homem colocou para travar a sua fúria.


Rezam as lendas que num determinado ano, cuja lembrança há muito desapareceu, a fúria foi de tal forma devastadora que o mar destruiu uma capela erigida em honra de Nossa Senhora da Guia, implantada no cimo de uma das maiores dunas daquela praia, em cujo frontispício estavam gravadas as figuras de um cavalo e de uma embarcação com a legenda: “Nossa Senhora, gueai os homens do mar, nossa senhora, não os deicheis naofragar”.


Tudo se passou num instante, em que um estrondoso relâmpago assolou a terra e, num fugaz momento de história, trucidou dezena de pequenos palheiros e matou um número indeterminado de famílias de pobres pescadores que foram surpreendidos com a sua rapidez.
Não era este o caso tendo em conta o que se tinha passado nas últimas horas.


Surpreendentemente, neste amanhecer, o mar está completamente calmo. Os homens do mar, pescadores e surfistas daquelas praias nunca conseguiram explicar porque razão tal acontece. Como é que, em poucas horas, o mar perde toda uma energia avassaladora, o vento desaparece e a agitação é estancada.
Algo é certo, pois este estranho fenómeno que se repete de forma cíclica desde décadas assim o determina, muita pescaria e riquezas vão aparecer nas semanas seguintes.


Estendido em cima de uma prancha carcomida pelo tempo, debruada nos rails por colónias de pequenas cracas, percebes e outros crustáceos, olha para o mar em seu redor e nota que a sua única quilha ainda ostenta uma cor flamejante. Desperta estremunhado com a água fria a cortar os pés e mãos e com esforço estica os braços em cima da prancha. Uma rajada de vento gélido de Norte, intensificado pelo frio da madrugada a anunciar nevoeiro, bate na cara como um punhal cravado de ódio ordenando-lhe que acordasse. As algas e o sargaço que o cobrem, sentindo o seu despertar, começam, como se tivessem vida própria, a escorregar pelo corpo e prancha, lentamente abandonando o e retornam ao mar para serem comida de cetáceos. Colónias de pequenos crustáceos que sentindo o dia a chegar abandonam a prancha, como se de um suicídio coletivo se tratasse, devolvem a lisura original e a cor alva que originalmente a caracteriza.


O céu queria chorar, mas descargas elétricas em forma de relâmpagos manifestavam-se ao longe movendo – se lentamente pelo infinito do mar acompanhando uma lúgubre mancha que, borbulhante, fazia o seu percurso rumo ao infinito, para além do tempo e espaço.
Ouve-se, de forma cada vez mais ténue, sons guturais e submersos que se assemelham a um misto de vozes dolorosas, suplicantes e aterrorizadas, abafadas por uma ladainha quase cerimonial composta por palavras e frases incapazes de serem reproduzidas por um qualquer humano.
Senta-se na prancha e com um olhar concentrado nas palmas das mãos, cuja membrana interdigital deixou de ser uma realidade, roda os braços para perceber que a coloração cinza esverdeada que os envolve, e que estava intensificada pela penumbra da noite, esvanece e revela um normal tom de pele queimada pelo sol.
Os símbolos cravados por si no peito com uma faca de filetar, hieróglifos incompreensíveis para o comum dos mortais e que lhe deviam conceder proteção, voltam a aparecer como meras cicatrizes hipertróficas que lhe lembram que nunca estará a salvo.

 

 

 

 

"É uma boca de caverna que ele sabe que conduz a uma galeria interna,

 

onde o mar chega por via de um lago submerso..."

 

 

 

 

 


Por instantes, os olhos fixam numa pequena abertura na escarpa. É uma boca de caverna que ele sabe que conduz a uma galeria interna, onde o mar chega por via de um lago submerso com vários quilómetros de extensão e que se espraia por uma largura e altura impressionante, digna de um lugar de culto de uma religião que se prostrava perante os Antigos Deuses.


Olha desorientado à sua volta, mas sabe o que fez e como lá chegou. Aliás, segura dentro da sua mão uma pequena cruz prateada, pendurada numa corrente que envolve o seu pescoço, fecha os olhos e chora convulsivamente pedindo, a uma autoridade superior, perdão.
O mar é confortável. O mar sempre o tratou bem, e ele sempre tratou bem o mar. Mas isso não é suficiente. Não é ele que lhe cobra, a cada sete anos, um sacrifício, não é ele que o obriga a pagar em sangue, não é ele que o leva a cometer os mais abomináveis atos conhecidos pelo homem. Não é o mar…
A amargura que o envolve, o peso da responsabilidade que lhe cai sobre os ombros torna-se cada vez mais pesada, mas ele sabe que só assim pode impedir um amanhã em que as criaturas das profundezas, impulsionada pelos seus deuses atrozes, voltem a dominar a terra e escravizem toda a raça humana.
Roda a prancha e com toda a calma e serenidade, retorna à praia onde com prancha debaixo do braço, afasta-se e desaparece pelo meio das dunas.

Pois ele é Zogt Marc, filho de Dagon, O Príncipe Herdeiro dos Profundos! *

 

 



*Entrei na Universidade em 1994 e, desde cedo, habituei-me a frequentar os alfarrabistas da cidade do Porto onde comprava livros baratos. Foi na Rua das Flores que encontrei um pequeno livro da coleção Vampiro, de 1960, chamado “Os Mortos Podem Voltar”, tradução do conto de H.P. Lovecraft “The Case of Charles Dexter Ward”.
Foram precisos vários meses, e mesmo anos, para conseguir encontrar mais material, em espanhol e brasileiro, do H.P. Lovecraft. Contudo, aquela história, o estilo e o ambiente contagiante que o senhor de Providence proporcionava levou-me, naquela altura, a criar o Zogt Marc como uma personagem para um álbum de banda desenhada que acabou por ficar na gaveta.


Com a ajuda do surfista e ilustrador vimaranense João Espirito Santo, cujo trabalho recomendo vivamente que procurem, decidimos ressuscitar das trevas esta personagem amargurada pelo peso da responsabilidade de ter de acalmar a fome de seu pai em prol da vida dos seres humanos que o rodeiam. A ilustração do João é de tal forma detalhada que, quando a olhamos, percebemos logo a amargura do nosso herói e do seu conturbado estado de espírito.


Assim nos despedimos, o João e eu, com um aviso: “Ph'nglui mglw'nafh Cthulhu R'lyeh wgah'nagl fhtagn” que, caso ousem, terão de traduzir.


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