sábado, 15 janeiro 2022 11:20

No Mundo do Surf - Os Bons Locais é que são os Verdadeiros Locais

O localismo no mundo surf é perfeitamente comparável à xenofobia. 

 

*Por Francisca Almeida Campos

 

 

 

OS BONS LOCAIS É QUE SÃO OS VERDADEIROS LOCAIS:

 

O surf deveria trazer tranquilidade a quem o pratica. Uma sessão de free surf deveria representar o momento sereno dos nossos dias, ou vidas, atarefadas e stressantes. No entanto, existe uma grande diferença entre libertarmo-nos das nossas emoções e descarregarmos as nossas emoções. Infelizmente presenciamos demasiadas vezes, irmãos de mar a descarregar as suas emoções em sessões de free surf, com violência gratuita (verbal ou física), ao invés de se libertarem delas.

 

 

 

 

"Os verdadeiros locais são os que defendem

 

e acrescentam alguma coisa à sua praia..."

 

 

 

 

Com o crescimento exponencial do crowd nas praias, é indispensável haver ordem no line-up, haver uma boa prática das regras de etiqueta no surf. O aglomerado de surfistas no mesmo pico apresenta uma série de perigos e por isso, sou a favor de educar as pessoas que não seguem as regras ou simplesmente não as conhecem. Porém, estamos em 2022 e já está ultrapassado justificar e aceitar as atitudes estilo velha-guarda que continuamos a assistir dentro de água.

O localismo no mundo surf é perfeitamente comparável à xenofobia. É o fenómeno primitivo no qual o ser humano pratica o preconceito e uma atitude hostil contra quem é de outro meio. No caso do surf, contra quem é de outra praia. Mas na verdade, devia ser posta em causa a expressão “localismo”, neste sentido depreciativo em que tão frequentemente a usamos, porque os verdadeiros locais são os que defendem e acrescentam alguma coisa à sua praia. São os que preservam o ecossistema do sítio onde surfam todos os dias, os que têm um cunho na estruturação da comunidade de surf daquele local, os que motivam os surfistas mais novos, ou os surfistas iniciados que encontram na água. Os verdadeiros locais são os que têm uma atitude e consequentemente um impacto positivo na sua praia local. No entanto, todos somos testemunhas do localismo mau, do localismo agressivo, do localismo negativo. Por vezes presenciamos até a ataques de possessão entre locais da mesma praia, disputas pelo trono imaginário de rei da praia.

 

 

 

"presenciamos demasiadas vezes,

 

irmãos de mar a descarregar as suas emoções em sessões de free surf,

 

com violência gratuita (verbal ou física),

 

ao invés de se libertarem delas..."

 

 

 

Faço surf há 20 anos e por isso perdi conta das vezes que já fui dropinada, que me deram a volta e que levei com pranchas. Contudo, sou humilde o suficiente para saber que também cometo erros e por isso não sou de levantar discussões. Estou ali para me divertir, para passar um bom bocado e tenho o respeito sempre presente. Não posso dizer que nunca dropinei ninguém, mas nunca com essa intenção e sempre que me apercebo peço desculpa. Seja a uma criança ou a um adulto, a uma mulher ou um homem, seja a alguém conhecido ou desconhecido, estando na minha ou em qualquer outra praia. Posso sim dizer que já saí muitas vezes de ondas que eram minhas, para deixar passar aquela figura que já anda naquela praia há muitos mais anos que eu, porque tenho um respeito gigante pelos locais positivos. Não me dói nada esperar pacientemente por outra onda.

Já assisti a várias situações de localismo negativo e de violência gratuita, mas nunca me tinha tocado diretamente até esta semana. Sabem quando encontram pessoas que já não vêem há imenso tempo na água? Quando as ondas estão sempre a entrar e dão para todos? A harmonia dessas sessões é inconfundível. Passado uma hora e meia disto, chamou-me à atenção um homem adulto a dirigir-se de forma inóspita a uma miúda que estava a ter uma aula de surf. O ambiente já não era o mesmo. Alerta local negativo! O meu reflexo é sempre colocar-me o mais longe possível, mas infelizmente naquele dia só havia um pico surfável na praia. Procurava uma última onda para sair da água e comecei a remar para uma esquerda em que não vinha ninguém. Só estavam perto uns surfistas que já tinham apanhado ondas a seguir a mim, mas de repente sinto um encosto violento do meu lado esquerdo e uma pancada forte

com a mão na minha nádega. Como referi anteriormente, não levanto discussões sobre ondas, erros ou distrações, mas esta situação não teve nada a ver com quem tinha ou não prioridade. Teve a ver com a atitude violenta do local em questão e enquanto mulher, sobretudo a ver com o assédio praticado. Ainda consigo ponderar que o sítio em específico possa nem ter sido intencional, mas não faltou intencionalidade naquela pancada, sem precedentes ou justificação possível. Tudo o que sucedeu desta situação foi só infeliz, como já seria de prever quando envolve um local negativo e agressivo.

Hoje lamento também eu ter comprometido a tranquilidade da sessão para os demais presentes, por outro fiquei surpreendida com a passividade que experienciei e questiono-me se caso tivesse sido com as suas namoradas, irmãs ou filhas, teriam adotado a mesma postura indolente. A neutralidade perante uma situação, difere muito pouco ou quase nada da sua aceitação. Ignoremos até que foi com uma mulher, pois a gravidade é a mesma. Vamos continuar a encolher os ombros à violência gratuita, numa actividade tão auspiciosa como o surf?

A minha esperança é que a geração mais nova tenha um olhar critico sobre as situações a que assiste e aprenda o que não fazer na sua praia (ou em qualquer outra). Claro que também nos deparamos com o assédio fora de água, com a falta de civismo e egoísmo, com pessoas violentas nos mais diversos locais, com pessoas que não acrescentam nada de positivo às nossas vidas. Ainda assim, o tema do localismo negativo devia ser reflectido e debatido (sobretudo entre os mais novos), de forma que cada um de nós, de forma consciente, possa contribuir para a sua decadência e para a ascensão do localismo positivo. Se cada surfista, olhar para o lado na sua praia, e parar de aceitar o seu amigo ou conhecido com atitudes de local negativo, talvez num par de anos estas atitudes tenham o repúdio e rejeição que já deveriam ter hoje em dia. Talvez se começarmos no mundo do surf, se contagie para os outros mundos. Talvez seja só eu a sonhar alto.

 

 

"O surf deveria trazer tranquilidade a quem o pratica.

 

Uma sessão de free surf deveria representar o momento sereno

 

dos nossos dias, ou vidas, atarefadas e stressantes..."

 

 

 

 

 

 

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