30 anos separam estes dois momentos, mas a determinação é a mesma 30 anos separam estes dois momentos, mas a determinação é a mesma sexta-feira, 11 fevereiro 2022 02:57

Kelly Slater faz 50 anos hoje

Aos vinte anos, tornava-se no mais jovem campeão de sempre...

 

 

 

 

 

Slater junto com o grupo de jovens surfistas de maior carisma da sua geração - Momentum Generation

Da esq.para a direita : Benji Weatherly, Rob Machado, Ross Williams, Greg Browning, Taylor Knox, Shane Dorian, Kelly Slater, Donavon Frankenreiter, Conan Hayes

Foto : Steve Sherman

 

 

 

 

"A vitória em Pipeline da semana passada,

 

perante surfistas com idades para serem seus filhos,

 

será muito possivelmente a melhor prenda de aniversário que poderia ter"

 

 

Já muito se falou sobre a vitória da semana passada, e por isso não me vou alongar nela, a não ser para referir um ponto que me parece muito interessante – vejo no Slater a necessidade de confirmação, de mostrar que aos 50 anos continua a ser relevante no surf profissional, de demonstrar porque é considerado como o melhor surfista de sempre. The GOAT, The Greatest Of All Time. E o melhor local para isso é Pipeline. A onda mais mediática, a mais desafiadora, também a mais perigosa, a que define carreiras e destinos.

Vejamos : acredito que para os mais jovens e para os surfistas mais recentes, Kelly Slater já não diga muito. A última vez que foi campeão do mundo foi em 2011, há onze anos. A última etapa do Tour que venceu foi o Billabong Pro Tahiti, em 2016, portanto há cinco anos. Em 2017 e 2018 esteve praticamente ausente do Tour devido a uma lesão crónica num pé, embora com permanência garantida graças ao “WSL Season Wildcard” *. Em 2019, conseguiu ficar dentro do Top 10, na 8ª posição. Em 2021, conseguiu a 18ª posição, feito assinalável constatando que só esteve presente em 3 das 7 etapas.

 

*Uma regra peculiar ao surf profissional, que permite a dois competidores, seleccionados pela WSL, requalificarem-se para o ano seguinte, alegando não terem podido competir devido a lesões incapacitantes contraídas no ano anterior. Em termos formais, a regra não é totalmente clara quanto aos critérios de atribuição, embora se tenha convencionado que sejam atribuídos a surfistas lesionados (daí, frequentemente usar-se o termo “Injury Cards”). Notas adicionais: São requalificados os surfistas que no final do ano anterior estejam no topo 20 do ranking, a que se soma os que conquistem as doze posições de topo do circuito de qualificação (Challenger Series); Em 2020, devido à pandemia de Covid-19 não se realizou o circuito.

 

Com a atenção do público, dos media e das redes sociais mais focada no “Brazilian Storm”, é compreensível que os mais jovens não se lembrem do Slater, ou que o considerem um “dinossauro”, alguém que se vai mantendo no Tour, mas sem resultados significativos nem ambições que desafiem as atuais estrelas do surf mundial.

Estou portanto convicto que Slater necessitava desesperadamente desta vitória, e que esta  fosse em Pipeline.

 

 

 

 

 

"O “heat” considerado por muitos como o mais crítico neste evento,

 

opôs Slater ao Barron Mamiya,

 

surfista que tem idade para ser filho dele.

 

Aliás, Barron é mais novo do que a própria filha, Taylor Slater..."

 

 

 

 

Um detalhe carregado de significado para mim (tenho 55 anos) : o “heat” considerado por muitos como o mais crítico neste evento, opôs Slater ao Barron Mamiya, surfista que tem idade para ser filho dele. Aliás, Barron é mais novo do que a própria filha, Taylor Slater (ele nasceu 2000, ela em 1996).

 

 

Kelly e Taylor / pai e filha

 

 

 

"Slater queria desesperadamente confirmar o seu título

 

com uma boa apresentação no principal palco do surf mundial..."

 

 

 

Faço o paralelismo entre esta sua mais recente vitória em Pipeline com a sua primeira também lá, em 1992, trinta anos atrás, pois tratou-se de uma vitória crítica para Slater.

Naquele ano, quando o Tour chegou ao Hawaii, já Slater tinha conseguido o título de campeão do mundo, conquistado na etapa anterior, no Brasil. Aos vinte anos, tornava-se no mais jovem campeão de sempre.**

 **Gabriel Medina conquistou o seu primeiro título, em 2014, também com vinte anos.

Slater era a estrela em ascensão. O contrato de exclusividade assinado com a Quiksilver fazia dele um dos surfistas mais bem pagos. Uma revista de celebridades com grande tiragem nos Estados Unidos, People, tinha-o escolhido como uma das “Cinquenta Pessoas Mais Belas”. Tinham sido publicados dois filmes com enorme sucesso logo na altura, e  hoje em dia considerados clássicos, o Kelly Slater in Black & White e o Momentum. Este último batizou uma nova geração de surfistas norte-americanos, liderada pelo Slater – Momentum Generation -  que com um surf tão veloz que quase descontrolado, iria dominar o surf dos anos 90, menos na competição (com as exceções do Slater e Rob Machado, evidentemente), mais no tipo de surf promovido pelas revistas e vídeos.