Filipe Toledo airlines em Peniche. Filipe Toledo airlines em Peniche. Foto: Pedro Mestre/WSL
terça-feira, 08 dezembro 2015 14:39

"SUPERTUBOS EM TERMOS DE ONDAS ESTEVE MUITO LONGE DO EXPECTÁVEL"

Uma análise detalhada da etapa portuguesa do World Tour pelo juiz internacional Pedro Barbosa…

 

Moche Rip Curl Pro Portugal, um dos grandes alicerces e responsáveis pelo “boom” que o surf teve em Portugal. A quantidade de visitantes que o nosso país recebe e a mobilização interna em massa dos nossos adeptos faz com que Peniche, no espaço de uma semana, seja o centro de todas as atenções mediáticas no país e no mundo. O trabalho desenvolvido pela organização do evento, liderada pelo Francisco Spínola, será concerteza um dia também recordado pelo excelente contributo que deram ao surf nacional.

Na minha crónica gosto de cingir-me aos aspetos dos quais tenho conhecimento, no entanto, acho importante fazer comentários construtivos para que este evento seja ainda melhor nos próximos anos. Não tenho dúvida que a organização estará a trabalhar nestes aspetos.

Como nas grandes empresas comecemos pela visão/motto do tour: “Os melhores surfistas nas melhores ondas”. Depois olhamos para a estratégia e saliento alguns factos:

- País pequeno com recursos limitados - é importante juntar sinergias;

- Peniche - Terra do offshore e com condições fantásticas para a prática do surf;

- Ericeira - terra dos point breaks (estarão neste momento a achar estranho);

- Uma hora de distância entre os dois locais;

- Esqueçamos os interesses autárquicos e concentremo-nos em fazer um bom evento no país, uma vez é bom para Peniche outra para a Ericeira, Figueira da Foz, Nazaré, whatever;

- Imaginem poder premiar um surfista que fosse o melhor nos tubos de Peniche ou nos points breaks da Ericeira (e Ribeira serviria perfeitamente para o efeito), podíamos reunir o melhor de dois mundos.

 

Objetivo final: atletas , público e sponsors satisfeitos

Mais uma vez, não sou nenhum expert na organização de campeonatos e não disponho da informação total. Compreendo que, por vezes, é muito complicado mudar o local de prova, mas depois de ouvir comentários de diversos atletas, sessões de free surf incríveis em outros locais, posts de atletas no Instagram de altas ondas em Peniche e de no fim de semana da prova estarem dois dias de condições clássicas de surf na Ericeira (Ribeira de maré vazia e Pedra Branca de maré a encher), creio que para a continuidade do surf em Portugal é importante voltarmos ao conceito original do evento, a procura das melhores ondas. E digo isto, porque, mesmo sabendo que a mãe natureza desempenha um papel fundamental, esta prova em termos de ondas e espetáculo esteve muito longe do expetável.

 

Vamos à prova: Início Supertubos com pouco vento e ondas de 0.5-1 metro. Nesta prova onde as previsões não eram as melhores, nas fases iniciais a grande expetativa seria ver com se portariam os wildcards portugueses diante dos melhores dos mundos:

 

Round  - 1ª surpresa

Frederico Morais - o melhor score do round e o destaque da ronda

Eu acompanho a evolução do Frederico, se não me falha a memória (isto porque os anos já pesam), provavelmente desde que ele entrou na sua primeira competição (organizada pela FPS) ainda o seu pai, Nuno Morais, entrava para dentro de água para o apoiar. Os surfistas passam por diferentes fases na sua evolução e é sempre uma incógnita fazer previsões onde poderão chegar. Seja como for, para mim existe uma bitola que serve de referência e por vezes é a principal caraterística para estar entre os melhores do mundo: quando estás a surfar com eles tens que fazer ondas com notas semelhantes.

O mais surpreendente é que o Frederico não só ganhou aos seus adversários diretos como obteve o melhor score do round e numa onda com apenas três manobras fez uma nota excelente muito perto da perfeição: 9.43 pontos. Fazer uma nota destas sem surf progressivo, sem tubos, só com manobras top-to-bottom diz muito do nível de surf apresentado pelo Frederico. Reparem bem na amplitude dos bottoms, o ataque mesmo na secção crítica com “speed, power and flow”, a ligação entre as duas primeiras manobras é fantástica, sem perder velocidade e com a segunda manobra ainda com mais intensidade.

 

Agradável surpresa foi também a passagem de Vasco Ribeiro que com o seu surf explosivo e sempre imprevisível mandou para o 2º round o candidato ao titulo Owen Wright e o Michel Bourez ainda muito sentido da sua recente lesão. 

O nosso “Portuguese Tiger”. Pouco há a dizer do nosso grande representante, talvez a pessoa que mais contribui para o surf neste momento estar como está no nosso país. Acho que não poderia haver melhor forma de passar o testemunho para as próximas gerações do surf português. É sempre bom vê-lo a acompanhar os nossos próximos pretendentes a entrarem na primeira divisão.

Relativamente ao Surf de Tiago Pires, num mar com poucas oportunidades e, apesar de ter uma onda boa, não conseguiu encontrar uma segunda onda caindo sempre na segunda manobra ou na primeira. 

 

2º Round 

Num mar muito difícil, mais uma vez com poucas oportunidades, "Saca" acaba por ser eliminado pelo seu grande amigo no tour, Adriano de Souza. É um facto que os atletas de exceção não gostam de perder e o Saca gostaria de ter feito uma boa prova no seu país. No entanto, acho que ver o seu amigo passar e manter as hipóteses de ser campeão mundial, o deixou de certa forma mais reconfortado.

Nesta fase perderam também dois dos grandes candidatos ao título mundial com prestações bastante abaixo do expetável, Julian Wilson e Owen Wright. O discurso de Owen Wright mostra o seu desalento pelo facto de estar a competir nestas condições: “Apart of my performance I felt I did pretty ok….the world title part I’m pretty devastated… to go out in conditions like these, this is not what we surf all the year…this is a crucial heat to me and I’m surfing 1 foot waves….I’m pissed off about it there is swell coming and I know I could have done better there….”

A escassez e qualidade das ondas fez com que o 2º round fosse pouco interessante de ver e com scores muito baixos. John John Florence foi o destaque do round.

 

3º Round 

A praia fica ao rubro, nº 1 e o nº 2 do ranking (Mick e Adriano) perdem com a dupla dinâmica Frederico e Vasco. Comecemos pelo Frederico. Essa foi a sequência dos heats Normalmente quando vejo surfistas de topo junto dos campeões mundiais noto sempre uma pequena diferença na qualidade de surf, pequenos detalhes no power, fluidez, utilização do rail, etc. O que mais me surpreendeu foi ver o Frederico, um surfista que já avaliei em diferentes condições, superar claramente o campeão mundial e para mim a referência mundial em termos de técnica de execução das manobras. Isto de facto não estava à espera. Reparem bem o power que imprime no primeiro carve e depois a finalização na secção crítica com um reentry fortíssimo a chutar o tail, mais uma onda de 9 pontos e a meter o nº 1 do mundo em sentido.




Apesar de muitos comentários, inclusivamente do Kelly Slater, o Frederico foi um justo vencedor e os juízes estiveram bem no resultado.

Heat do Vasco: mais uma excelente prestação contra o surfista do tour com o surf mais preciso e que não falha. O Vasco também não falhou e venceu o seu heat apresentado grande qualidade no surf e uma onda excelente. O Vasco tem uma base super sólida, muita velocidade e capacidade de surpreender, para além disto tudo tem uma característica fora de série: acredita no seu potencial! É muito raro o Vasco não fazer consistentemente ondas boas/excelentes num heat. Do meu ponto de vista o factor crucial e diferenciador é a sua velocidade.

Raparem no “Heat Recap” a direita do Vasco, com uma manobra de finalização fora de série: quando chega à junção parece que liga um motor, imprime muita velocidade, chutando o tail todo no ar com uma receção perfeita. Para finalizar o heat faz uma esquerda sempre a manobrar no crítico com três reentries fortíssimos, especialmente o segundo e terceiro com uma excelente ligação entre as manobras. 8.43



Perdiam assim dois candidatos ao título e o Owen e Julian voltam a ter ainda hipóteses de serem campeões do mundo. O surfista com o melhor score do Round foi Jeremy Flores. Aqui vemos a sua melhor onda, onde destaco a qualidade fora de série do primeiro carve: 9.43!

 

4º Round

O Frederico volta a surpreender, mas agora com tubos, demonstrando que tem todo o reportório, não esquecendo que no ano em que eliminou o Kelly Slater foi com um aéreo reverse. Passa direto para os quartos de final. Volta a confirmar o surf excelente que apresentou;

Vasco perde e tem ainda mais uma hipótese no round 5;

O destaque do Round vai para Filipe Toledo com o melhor score do round 19 em 20 possíveis, onde se destaca este aéreo reverse full rotation, com excelente projeção e a aterrar mesmo no crítico.

 

5º Round

Round com ondas muito fracas a darem poucas possibilidades aos surfistas. Foi um round com pontuações muito baixas;

O Vasco volta a passar e junta-se a Frederico no 5º Round, num heat com pontuações baixas;

A parte mais interessante do round foi ver, mesmo em condições difíceis, alguns heats no Molhe Leste. Só de ver os arranques nesta onda e a forma como as manobras eram executadas, já valeu a pena a mudança do local de prova.

 

Quartos de Final

O Vasco e o Frederico chegam juntos aos quartos de final, momento histórico para o surf português. Todos gostaríamos de voltar a testemunhar uma situação destas. Desde já vos digo que pode demorar anos ou nunca mais existir… como é óbvio, espero que não, tenho confiança no surf português, mas nunca tínhamos estado nem perto de um resultado destes!

O Frederico é eliminado num heat polémico que falaremos mais à frente e o Vasco avança de forma brilhante com duas ondas boas num mar com condições muito difíceis.

 

Melhor performance/Surfista em ascensão/Surfista com factor X

Apesar de alguma relutância nesta decisão tenho que nomear um surfista novamente nas três categorias. Neste mar difícil o Filipe Toledo fez os scores mais altos do evento, foi o surfista que mais posições subiu no top 10 (quatro posições), fez o único 10 do evento e na final. A forma como surfa esta onda é de facto impressionante.

Cada vez mais o Toledo é um forte candidato em condições de mar difíceis devido à sua velocidade e capacidade de fazer manobras progressivas do nada. 

 

As ondas e as decisões dos calls

As decisões dos calls creio que foram bem feitas tendo em conta que a prova se realizou toda nos Super, não havendo mudança de local. Até a decisão de finalizar um dia mais cedo foi bem conseguida. A questão está na prova se cingir apenas aos Super.

 

O Julgamento e os casos da prova

Esta é uma das provas mais difíceis de julgar. Ondas pequenas e tubulares que depois deixam de dar tubos e apenas temos manobras. Mar onshore desorganizado, prova nada fácil. Gostaria de salientar que esta prova não teve só a participação de surfistas portugueses, teve também a presença do nosso representante Nuno Trigo que, por si só, é um facto bastante significativo para o julgamento e para o surf em Portugal. 

O julgamento foi bom, creio que os resultados foram corretos. Existiram algumas ondas que pensei que seriam mais altas nomeadamente no heat do Frederico. O 6.83, na minha opinião, é melhor que o 6.90 dele. Acho também que o 6.00 do Fanning é melhor que o 6.90 do Frederico, mas pior que o 6.83 dele.

O Frederico foi um justo vencedor. Façam a vossa avaliação:



Relativamente ao polémico heat, em que o Frederico perde, é daqueles heats muito próximos e o Frederico tem experiência suficiente para gerir este tipo de situações. Na sua onda 5.53 a primeira manobra é muito para a frente mas o reentry é muito forte, creio que a onda de 6 pontos do Brent é claramente melhor. É legítimo que os juízes não lhe tenham dado a vitória, na minha opinião é daqueles heats no limbo.

 

Finalizando: Apesar das fracas condições o campeonato elevou-se pela fantástica prestação do Vasco e do Frederico. O Vasco no seu primeiro campeonato no WCT iguala o Saca com o melhor resultado de sempre atingido por um português (meias finais)!. De uma forma geral isto é contestável e difícil de medir, mas, na minha opinião, este é o melhor resultado de sempre do surf português. O surf apresentado por ambos foi fora-de-série e não há qualquer dúvida que o potencial para termos surfistas no WCT está todo lá

 

Próximos episódios

Decisão do título no Hawai, com seis potenciais vencedores. O mais interessante dos últimos anos - três brasileiros e três australianos - as grandes potências atuais no mundo do surf;

A minha previsão é que o Fanning vai conseguir o seu quarto título, mas o menino prodígio do Brasil tem carisma e capacidade para mudar o cenário mais previsível na conquista do título mundial.

 

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Texto: Pedro Barbosa

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