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sexta, 07 setembro 2018 09:17

Gliding Barnacles 2018… ou a Figueira da Foz no centro do mundo do surf

O que há a saber sobre a quinta edição do evento... 

 

Da Figueira da Foz para oriente, até à pequena povoação costeira de Batu Karas, na ilha de Java Ocidental, Indonésia, são cerca de 13 mil quilómetros, pelo ar. Grosso modo, a mesma distância, para ocidente, a que as ondas da praia do Cabedelo ficam, por via aérea, das míticas direitas (e esquerdas) do Havai. Quase o mundo inteiro separa Batu Karas do Havai… com o Cabedelo no centro da viagem.

 

De Batu Karas chegou à quinta edição do Gliding Barnacles um jovem indonésio, de tez escura, conhecido no mundo do surf por Deni BlackBoy, ele que nasceu Deni Firdaus. Blackboy, 20 e poucos anos, nunca tinha saído da Ásia e, sempre sorridente mas de poucas falas, aparentemente demorou um ou dois dias a ambientar-se ao bulício de um festival que começava cedo na praia e se prolongava, noite dentro, numa antiga garagem automóvel, em plena zona turística da Figueira da Foz.

 

Num pequeno documentário de 2017, BlackBoy expressava a gratidão que sente por viver em Batu Karas, com o pai e a irmã mais nova, uma zona recôndita do mundo onde as pessoas são amigáveis, as praias bonitas e todos se preocupam com o ambiente. Deni é, pode dizer-se assim, um simples rapaz de aldeia, que de manhã ajuda o pai no ofício deste e depois faz-se à praia para surfar, dar aulas a surfistas principiantes e acaba o dia a reparar pranchas. Pelo meio, entrega-se a um hobby comum a muitos residentes na ilha indonésia: as motorizadas antigas, que tanto servem para fazer enduro floresta adentro como para desafiar amigos numa improvisada pista de motocross. Para BlackBoy, a moto de motor a dois tempos também carrega a longboard single fin com que se entrega às pequenas ondas de Batu Karas…

 

- Foto: Ricardo Gonçalves

 

Convidado da quinta edição do Gliding Barnacles, Deni BlackBoy voou para a Europa (e para Portugal) pela primeira vez em duas décadas de vida. Ainda mais nova, 13 anos apenas, e também pela primeira vez em território europeu rumou à Figueira da Foz a mais jovem surfista alguma vez convidada do festival, Kelis Kaleopaa, que chegou acompanhada da mãe, Malia, ambas descendentes de portugueses. Também do Havai e também pela primeira vez na Europa chegaram as jovens irmãs Mason e Lola Schremmer, que apenas levavam um par de horas na cidade do Centro de Portugal e, bem-dispostas, explicavam que da capital Honolulu, onde residem, até à costa norte havaiana também se encafuam numa viatura pranchas de quase três metros e surfistas muito acima da lotação, tudo porque as ondas não podem esperar!

 

A juntar aos surfistas que aqui rumaram pela primeira vez, a edição 2018 do Gliding Barnacles foi de estreias absolutas também para os muitos fotógrafos, músicos e ‘shapers’ (artesãos de pranchas) – de entre os mais de 300 estrangeiros presentes – que se deslocaram a Portugal (e à Europa) pela primeira vez.

 

Foi o caso do shaper australiano Thomas Bexon, que tal como o surfista, seu compatriota, Samuel Crookshanks, o neozelandês Ambrose Mcneil ou o brasileiro Caio Teixeira, entre outros, estiveram, pela primeira vez, em território nacional, a contas com as ondas da praia do Cabedelo.

 

Por sua vez, o californiano Damea Dorsey, residente em Bali, Indonésia e um dos mais prestigiados fotógrafos de surf a nível mundial, fez a sua estreia no Gliding Barnacles, num regresso a Portugal depois de ter passado alguns anos por Peniche, palco da etapa nacional do mundial de surf.

 

- Fotos: Ricardo Gonçalves (esq) & Pedro Medeiros (dir)

 

Da Austrália chegou Paul McNeil, neozelandês de nascimento, radicado há 30 anos no continente australiano, surfista e artista plástico, que faz das telas mas também das pranchas os seus escaparates de eleição.

 

Nos repetentes, destacou-se o surfista italiano Matteo Fabri, ele que é totalista do Gliding Barnacles, já que marcou presença na Figueira da Foz pelo quinto ano consecutivo. E as ondas da margem sul do rio Mondego receberam, também, o regresso de uma autêntica lenda viva do surf australiano e mundial, Phil Jarratt, 67 anos, surfista, jornalista, escritor e cineasta, que por ali andou nos idos de 1973, (há 45 anos), ainda Portugal vivia em ditadura e o Cabedelo pouco mais era do que uma praia semi-deserta de banhistas e surfistas!

 

Phil Jarratt confunde-se com a própria história do surf: por causa dele escreveu 25 livros; tem uma menção na prestigiada Enciclopédia Britânica; promove, há mais de 20 anos, o Noosa Festival of Surfing; dirigiu 14 campeonatos mundiais em todo o mundo, foi diretor de marketing da Quiksilver para a Europa e chefe de projetos especiais da marca para o continente americano. Phil Jarratt defende a essência do surf, a comunhão com a Natureza, a amizade que se gera entre praticantes da modalidade, seja na partilha de ondas, seja na camaradagem fora de água, e garante que o Gliding Barnacles, representa, na perfeição, esse ideal.

 

Da história da quinta edição ficam, paredes meias com os já tradicionais sofás no molhe sul do Mondego - conferindo conforto a quem espiolha as ondas - um piano... e os moinhos de vento animadíssimos do senhor Saraiva, da freguesia de Tavarede; como ficam os olhares apurados do fotógrafo Valter Vinagre, as refeições à base de peixe magistralmente trabalhadas pela equipa do chef Diogo Rocha ou o vinho dos produtores João Roseira, Miguel Louro, Hugo Mateus e Ana Hespanhol. E como ficou o literal crowd surfing de Afonso Pinto, vocalista dos The Parkinsons, a cumprir um sonho antigo de deslizar numa prancha por cima da multidão que encheu, noites a fio, a antiga garagem Auto Peninsular.

 

- Foto: Filipe Neto

 

E, porque o surf está na base do evento, na história da quinta edição do Gliding Barnacles também fica João Batata, que levou para casa, em troca de um euro e da sorte ao jogo, uma longboard construída no Cabedelo por Thomas Bexon e decorada por Paul McNeil. Como fica, pela expressão artística demonstrada em cima da prancha, ao longo da semana, o francês Robin Falxa, vencedor de uma viagem e estadia à Nova Zelândia, a convite do festival The Single Fin Mingle.

 

O Gliding Barnacles, que vai buscar o nome a uma espécie – as cracas, Barnacles em inglês - que se fixa aos cascos dos navios e com estes navega pelo mundo fora, fazendo uma analogia com os surfistas agarrados às suas pranchas deslizando (Gliding) pelas ondas do planeta – cresceu em 2018, chegou definitivamente a novos públicos e quer continuar a inovar. Já com novas ideias na forja para 2019 – esperem para ver – o festival potenciou, no entanto, o tormento que dia-a-dia, todos os dias em pleno Verão, é chegar à praia do Cabedelo, pelo único acesso terrestre, atafulhado de automóveis.

 

Sem opção alternativa – um teleférico, um barco, uma ponte pedonal entre a cidade e a praia da margem sul da Figueira da Foz – Deni BlackBoy, surfista e motociclista nas horas vagas, terá por certo pensado no jeito que lhe dava a motocicleta a dois tempos para lá chegar!

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