A intervenção tem sido uma constante nas Praias da Figueira da Foz A intervenção tem sido uma constante nas Praias da Figueira da Foz / portugal2030.pt segunda-feira, 26 janeiro 2026 11:01

Portugal quer armazenar CO₂ no fundo do mar: projeto-piloto ao largo da Figueira da Foz levanta dúvidas ambientais e impacto no surf

O projeto é liderado pela indústria cimenteira nacional, através da ATIC – Associação Portuguesa de Cimento...

Portugal prepara-se para avançar com um plano ambicioso de armazenamento de carbono no fundo do mar, com o objetivo de reduzir as emissões da indústria cimenteira e cumprir as metas de descarbonização até 2050. A ideia passa por capturar o CO₂ nas fábricas de cimento, transportá-lo por gasoduto e injetá-lo em reservatórios geológicos submarinos, ao largo da costa portuguesa.

O projeto é liderado pela indústria cimenteira nacional, através da ATIC – Associação Portuguesa de Cimento, e prevê investimentos superiores a 2,2 mil milhões de euros ao longo dos próximos 20 anos. O primeiro projeto-piloto está previsto para 2030, a cerca de 22 quilómetros ao largo da Figueira da Foz, numa zona integrada na chamada Bacia Lusitânica.

Como funciona o plano

O CO₂ será capturado em seis fábricas de cimento em Portugal continental (Souselas, Alhandra, Loulé, Maceira, Pataias e Outão) e transportado através de uma rede de cerca de 680 km de gasodutos até ao local de armazenamento no oceano.
A operação prevê a perfuração de poços submarinos para injeção do carbono a grande profundidade, com uma capacidade mínima estimada de 90 milhões de toneladas de CO₂, podendo chegar às 300 milhões de toneladas.

Segundo a ATIC, a zona escolhida apresenta baixa atividade sísmica e condições consideradas “adequadas” para este tipo de armazenamento, prática que já existe noutros países, como a Noruega, há várias décadas.

Porque é que este plano está a avançar

A indústria do cimento é responsável por 6% a 8% das emissões globais de gases com efeito de estufa e enfrenta um desafio particular: cerca de 60% das suas emissões resultam da própria reação química do calcário, e não apenas da queima de combustíveis.

Com o fim das licenças de emissão previsto para 2040 na União Europeia, a captura e armazenamento de carbono (CCS) surge como a única solução viável para manter a produção de cimento em território europeu, evitando impactos económicos, sociais e na cadeia de abastecimento.


Pode este projeto ter impacto direto no surf?

Embora o armazenamento de CO₂ seja apresentado como uma solução tecnológica segura, existem questões relevantes para as comunidades costeiras e para a prática do surf que não podem ser ignoradas.

1. Intervenção no fundo marinho

A perfuração de poços e a instalação de infraestruturas submarinas podem alterar ecossistemas bentónicos, afetando recifes naturais e zonas de vida marinha que influenciam a dinâmica costeira. Em áreas como a Figueira da Foz, estas alterações podem ter reflexos indiretos na qualidade das ondas e nos bancos de areia.

2. Risco (mesmo que baixo) de fugas

Embora os estudos apontem para um risco reduzido, qualquer fuga de CO₂ ou falha estrutural poderia alterar a química da água local, com impactos na fauna marinha e, potencialmente, na qualidade da água usada por surfistas.

3. Obras, tráfego marítimo e ruído

A fase de construção e manutenção implicará tráfego de embarcações, ruído subaquático e atividade industrial, fatores que podem afetar zonas de surf, pesca artesanal e turismo costeiro, sobretudo se não houver zonas de exclusão bem definidas.

4. Haverá envolvimento das comunidades do mar ?

Até ao momento, segundo a surftotal apurou, surfistas, operadores de surf, pescadores e associações ambientais costeiras não têm tido um papel central no debate público sobre este projeto, apesar de serem utilizadores diretos do território marítimo.


Um tema que exige transparência e acompanhamento

O armazenamento de carbono no mar pode ser uma peça importante no combate às alterações climáticas, mas não pode avançar sem uma avaliação ambiental rigorosa, contínua e participada. Para o surf, que depende diretamente da saúde do oceano, da qualidade da água e do equilíbrio costeiro, este é um tema que merece atenção, escrutínio e acompanhamento próximo.

A transição energética não pode significar transferir a poluição para debaixo de água sem garantir que o oceano — e quem dele vive — fica verdadeiramente protegido.

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