Cargueiro à deriva à saída da barra da Figueira da Foz corre risco de naufrágio e levanta alerta ambiental
Potencial foco de poluição para as Praias da Figueira da Foz e adjacentes caso haja naufrágio...
Navio de bandeira neerlandesa perdeu o leme após alegado embate no fundo da barra, afetada por forte acumulação de areias. Autoridades e comunidade portuária alertam para perigo iminente e para potenciais impactos ambientais em caso de naufrágio.
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Um cargueiro de 89 metros, o Eikborg, de bandeira dos Países Baixos, ficou esta segunda-feira à deriva à saída da barra da Figueira da Foz, depois de ter perdido o leme, alegadamente após bater no fundo devido ao excesso de areia acumulada. A situação é considerada grave pela comunidade portuária local, que alerta para o risco real de naufrágio, sobretudo com o previsível agravamento das condições de mar.
Segundo Paulo Mariano, vice-presidente da comunidade portuária da Figueira da Foz, “estamos efetivamente a viver uma tragédia, porque há risco de naufrágio”, sublinhando que o problema não está relacionado com mau tempo, uma vez que “a barra estava operacional”, mas sim com um grave problema de assoreamento.
O responsável explicou que, apesar de terem sido investidos 28 milhões de euros numa dragagem de grande escala, baseada num estudo com cerca de dez anos, a intervenção poderá estar desajustada da realidade atual, tendo deixado a barra numa condição crítica. “Mal acabou a dragagem, ficámos com uma barra intransitável”, afirmou.
Navio engatado de marcha à ré e sem leme e à espera de socorro
Sem comandos, o Eikborg encontra-se a navegar de marcha-atrás, a cerca de meio nó, numa tentativa de manter algum controlo até à chegada de rebocadores. No entanto, não existem rebocadores disponíveis nem na Figueira da Foz nem em Aveiro, estando o socorro dependente de meios que terão de vir do porto de Leixões.
“É a única solução que o comandante tem para tentar dominar o navio até que chegue ajuda”, explicou Paulo Mariano, classificando o cenário como “a tempestade das tempestades”. Caso o navio comece a meter água na casa das máquinas, o risco de afundamento aumenta de forma significativa.
Porto praticamente encerrado e impacto económico
Na prática, a barra da Figueira da Foz encontra-se encerrada à navegação, apesar de oficialmente estar apenas condicionada a embarcações com menos de 35 metros. Existem navios retidos dentro do porto, cargas a serem desviadas para Leixões, Aveiro, Lisboa e Setúbal, e um impacto direto na economia da Região Centro.
O Eikborg transportava carga de celulose do grupo Altri, sendo esta já a segunda ocorrência semelhante em dois meses, o que agrava a preocupação dos operadores e pilotos do porto, que afirmam não ter condições de segurança para manobrar.
A solução do bypass sugerido pela comunidade surfista já teria resolvido esta situação de assoreamentos constantes:
Risco ambiental em caso de naufrágio
Para além do perigo para a navegação e da paralisação do porto, um eventual naufrágio levanta sérios riscos de poluição das águas, numa zona costeira sensível e com forte ligação às atividades balneares, piscatórias e ao surf.
Em caso de afundamento, os principais riscos ambientais incluem:
Derrame de combustíveis e óleos do navio (diesel marítimo, lubrificantes e fluidos hidráulicos), que podem espalhar-se rapidamente com a agitação marítima;
Contaminação da coluna de água e dos fundos, afetando ecossistemas marinhos, recursos piscícolas e a qualidade da água junto à costa;
Impacto direto nas praias da Figueira da Foz, dependendo da deriva das manchas de poluição, com consequências para a saúde pública, turismo e desportos náuticos;
Dificuldade acrescida de contenção, devido à proximidade da barra, à energia do mar e à eventual ausência imediata de meios de resposta.
Situações deste tipo exigem normalmente planos de contingência ambiental, com barreiras de contenção, meios de recolha e monitorização contínua — medidas que dependem de uma resposta rápida e coordenada entre autoridades marítimas, ambientais e portuárias.
Assoreamento sob forte contestação
Paulo Mariano responsabiliza diretamente as dragagens de transferência de cerca de três milhões de metros cúbicos de areia de norte para sul, da responsabilidade da Agência Portuguesa do Ambiente, defendendo que a barra nunca teve tanta areia acumulada. O responsável apelou mesmo à intervenção do Ministério Público e pediu uma atuação urgente do Governo.
Enquanto os rebocadores não chegam e o mar não dá tréguas, o Eikborg permanece numa situação crítica, com o desfecho ainda em aberto — entre um salvamento complexo ou uma ocorrência com potenciais consequências ambientais e económicas graves para a região e para o país.





