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Surf português despede-se de Paulo Inocentes: amigos recordam talento único e espírito “boa onda”
Amigos de longa data, companheiros de surf e de viagens, recordam-no como um talento raro e uma pessoa de trato simples, sempre bem-disposta e apaixonada pelo mar.
O surf nacional continua a reagir ao falecimento de Paulo Inocentes, uma das figuras mais marcantes da geração pioneira do surf português. Para além do legado técnico dentro de água, multiplicam-se os testemunhos que sublinham a sua dimensão humana fora dela.
Amigos de longa data, companheiros de surf e de viagens, recordam-no como um talento raro e uma pessoa de trato simples, sempre bem-disposta e apaixonada pelo mar.
“Um talento natural e uma pessoa fantástica” — Zé Braga
Ex-selecionador nacional de surf e amigo pessoal de Paulo Inocentes, Zé Braga recorda o início da amizade no início dos anos 80, em Carcavelos:
“Conheci o Paulo talvez em 82. Vinha de férias do Brasil e surfávamos sempre juntos em Carcavelos. Quando voltei definitivamente para Portugal tornámo-nos amigos muito chegados. Surfávamos juntos, trabalhávamos juntos.”
Sobre o surfista, não tem dúvidas:
“Como surfista toda a gente sabe como ele era. Tinha um talento natural, aquilo saía-lhe super bem e estava à frente do seu tempo.”
Mas é sobretudo a pessoa que destaca:
“Era uma pessoa fantástica. Sempre tranquilo, sempre simpático, alegre e com um sentido de humor muito próprio. Nunca tinha complicações com ninguém.”
Zé Braga recorda ainda as viagens e fins-de-semana dedicados exclusivamente ao surf:
“Às sextas-feiras já levávamos tudo para o trabalho. Saíamos e íamos direto surfar — Peniche, Areia Branca, onde fosse. Muitas vezes íamos longe à procura de ondas e acabávamos por voltar a Carcavelos, porque afinal estava melhor lá. Era a magia do surf naquela altura.”
E deixa uma nota emotiva:
“Ultimamente tentei estar mais com ele para aproveitar o Paulo antes de ele partir.”

"Eu vinha da Califórnia e punha o Paulo ao nível de qualquer bom surfista dos Estados Unidos naquela época.
Tinha um estilo lindo e uma sensibilidade para o mar que poucas pessoas têm.” Nick Uriccio
“Era um espetáculo vê-lo surfar” — Rui Félix
Também Rui Félix, ex-dirigente ligado ao surf europeu e amigo pessoal de Paulo Inocentes, partilhou a sua memória.
Recorda tê-lo conhecido em meados dos anos 80 nos acampamentos de verão nas dunas:
“O Paulo vinha para Aveiro trazido pelo João Luís. Era presença habitual nos verões da Praia da Barra e surfava todos os picos, alguns que já nem existem, como a onda da Meia Laranja.”
No contexto competitivo, o impacto foi imediato:
“Competiu em quase todos os Aveiro Surf e venceu muitos, em Júnior e Open, até internacional.”
E descreve o fenómeno que era vê-lo dentro de água:
“Com bom tamanho, o Beiçolas era dos poucos a entrar. O pessoal ficava fora de água só a vê-lo surfar e aplaudia. Era como ir ao cinema. Ele estava realmente muito à frente, a nível nacional e até internacional.”
A despedida é sentida:
“Fica a memória de um amigo boa onda, excelente surfista, divertido, gozão e companheiro. Deixa saudades. Descanse em paz.”
Um legado que fica
Paulo Inocentes pertenceu à geração que ajudou a construir o surf português moderno. Foi referência de estilo e tecnica, inspiração para muitos surfistas e presença marcante em locais como Carcavelos, Ericeira, Peniche e Aveiro.
Mas, acima de tudo, permanece a imagem de alguém que viveu o surf na sua essência: amizade, viagens, descoberta de ondas e paixão pelo mar.

Paulo Inocentes recordado por Nick Uriccio: “Era o standout da sua geração”
Nick Uriccio, shaper e fundador da Semente Surfboards, que conviveu de perto com Paulo desde o final dos anos 70. Nick recua a 1978, quando chegou a Portugal e se instalou na zona de Carcavelos:
“Conheci a malta toda dessa altura e, para mim, o Paulo Inocentes era o melhor surfista na água. Em qualquer lado do mundo, naquela altura, era um grande surfista.”
Com experiência prévia na Califórnia, Nick faz uma comparação rara:
“Eu vinha da Califórnia e punha o Paulo ao nível de qualquer bom surfista dos Estados Unidos naquela época. Tinha um estilo lindo e uma sensibilidade para o mar que poucas pessoas têm.”
Segundo Nick, numa geração repleta de nomes fortes do surf nacional, Paulo destacava-se claramente:
“Havia muitos bons surfistas, mas o Paulo era o standout de toda aquela geração.”
A relação entre ambos prolongou-se ao longo das décadas:
“Fizemos grandes amizades ao longo dos anos. Quando ele voltou da África do Sul ficámos novamente próximos. Ele chegou a surfar para a Semente e eu ainda tenho fotos e pranchas que fiz para ele.”
A despedida é emotiva:
“Foi das pessoas mais marcantes dessa geração. Toda a gente diz o mesmo porque é verdade. Uma boa pessoa, grande surfista. Vou ter saudades.”
O surf português despede-se de um dos seus pioneiros, mas o seu espírito continuará vivo nas memórias de quem com ele partilhou ondas e histórias.





