John John Florence trocou o Tour pelo Oceano: a viagem que está a inspirar o mundo do surf
O tricampeão mundial optou por seguir um caminho diferente
Tricampeão mundial decidiu não competir na WSL em 2026 para navegar pelo mundo com a família, procurar ondas perfeitas e viver o surf com outra liberdade
Num surf profissional cada vez mais pressionado por calendários, rankings, obrigações mediáticas e exigência competitiva constante, a decisão de John John Florence de não regressar ao Championship Tour da WSL em 2026 acabou por soar como algo raro - e até refrescante.
O tricampeão mundial optou por seguir outro caminho. Em vez de mais uma temporada na luta pelo título, escolheu navegar pelo mundo com a mulher, Lauren, e o filho, Darwin, a bordo do seu catamarã VELA, explorando zonas remotas, culturas diferentes e, claro, ondas perfeitas.
Uma pausa com peso e significado
John John já conquistou tudo o que havia para conquistar no topo do surf mundial. Foi campeão do mundo por três vezes, marcou uma era com o seu surf técnico, veloz e inovador, e construiu um estatuto quase único dentro da modalidade.
Mas precisamente por isso, esta decisão ganha ainda mais força. Não se trata de um afastamento por falta de resultados, nem de um passo atrás ditado por incapacidade competitiva. Trata-se de uma escolha consciente, pessoal e carregada de identidade.
Ao deixar o Tour para viver o oceano de outra forma, Florence transmite acima de tudo leveza - mas também personalidade. Num meio em que tantos seguem o caminho mais previsível, John John escolheu sair da rota e procurar outro tipo de realização.
VELA: ondas, família e vida no mar
Desta fase renasceu também VELA, (o VELA original é de 2020, mas em 2025–2026 John John relança a ideia como nova série/documentário de vela) uma série construída a partir desta viagem de exploração pelo mundo. O projeto acompanha não apenas a busca por ondas remotas, mas também a vida a bordo, os desafios das travessias e a experiência de criar uma família em pleno oceano.
Numa apresentação recente da série, John John falou da alegria de ver o filho a contactar com diferentes culturas e a conhecer pessoas em ilhas remotas. Ao mesmo tempo, admitiu também a exigência da vida no mar.
“Às vezes, durante uma travessia, a Lauren e o Darwin ficam enjoados. Estamos presos naquele pequeno barco e há sempre a pressão de aprender a navegar bem para manter a minha família segura.”
Esse lado mais humano e vulnerável afasta ainda mais esta aventura da ideia de simples escapadela romântica. Há aqui sonho, mas também responsabilidade, aprendizagem e exposição ao desconforto.
O surf fora da bolha competitiva
A narrativa de John John Florence toca num ponto profundo: depois de muitos anos no circuito, entrar numa rotina competitiva pode limitar a forma como se olha para o mar e para o próprio surf.
Segundo o próprio, esta pausa ajudou-o a reencontrar uma perspetiva diferente.
“Esta pausa abriu-me muito depois de tantos anos em Tour. Entramos numa rotina e torna-se difícil ver para além dela. Este ano deu-me a oportunidade de sair disso, e estou entusiasmado para voltar a fazê-lo.”
Há aqui uma mensagem poderosa para o surf em geral. Nem sempre o topo da performance está exclusivamente na competição. Às vezes, a redescoberta do surf passa por sair do circuito, mudar de ritmo, procurar ondas sem pressão e recuperar a relação mais pura com o oceano.
Uma aventura que também pode reforçar a sua marca
Há ainda outro lado interessante nesta decisão de John John Florence. Para além da dimensão pessoal, familiar e quase filosófica desta viagem, ela pode também funcionar como uma poderosa ferramenta de afirmação da sua própria marca, a Florence Marine X.
Num momento em que os surfistas de topo procuram cada vez mais construir universos próprios para lá da competição, esta travessia à volta do mundo encaixa de forma perfeita na identidade da marca criada por John John: oceano, aventura, exploração, performance e autenticidade. Cada imagem, cada episódio da série VELA, cada onda remota surfada em família transforma-se não só em conteúdo inspirador, mas também em posicionamento de marca.
Ou seja, esta pausa no Tour pode ser lida de duas formas ao mesmo tempo: como uma escolha profundamente pessoal e como um movimento muito inteligente no xadrez do marketing do surf moderno. Porque, no fundo, John John Florence não está apenas a viver uma aventura - está também a mostrar ao mundo, de forma muito natural, o tipo de vida, visão e narrativa que quer associar ao seu nome e ao futuro da sua marca.
Um sinal dos tempos?
O caso de John John Florence talvez diga muito sobre o momento atual do surf. Hoje, os grandes nomes da modalidade não vivem apenas de resultados competitivos. Vivem também da forma como constroem a sua identidade, da relação com o público, do conteúdo que produzem e da narrativa que conseguem gerar à volta da sua vida.
Neste contexto, a escolha de John John parece especialmente forte: em vez de voltar a disputar o Tour como se isso fosse obrigatório, decidiu seguir uma vida que o inspira mais neste momento. E essa autenticidade, no surf, continua a ter um peso enorme.
No fim, fica uma questão que vale a pena deixar no ar: num surf cada vez mais dependente de imagem, conteúdo e identidade própria, será que o futuro de alguns dos seus maiores nomes passa menos pelo Tour e mais pela construção de projetos pessoais com esta dimensão?