The Trash Traveler completou uma caminhada de 2.400 quilómetros pela costa portuguesa The Trash Traveler completou uma caminhada de 2.400 quilómetros pela costa portuguesa segunda-feira, 21 setembro 2026 09:09

Do surf a 2.400 quilómetros a pé pela costa portuguesa para ajudar a proteger o oceano

Andreas Noe chegou a Portugal como biólogo e encontrou no surf uma das suas ligações ao Atlântico.

 

A quantidade de plástico que começou a encontrar nas praias e dentro de água acabaria por alterar os seus planos. Seis anos depois, o alemão conhecido como The Trash Traveler completou uma caminhada de 2.400 quilómetros pela costa portuguesa, do continente à Madeira, Porto Santo e às nove ilhas dos Açores.

Aquilo que começou, em parte, dentro de água transformou-se numa aventura de seis anos pela costa portuguesa e num projeto dedicado à proteção do oceano.

Andreas Noe, biólogo alemão que veio para Portugal para realizar um doutoramento em biologia molecular, passava grande parte do seu tempo livre a surfar. Durante os meses de inverno, porém, começou a reparar na quantidade de plástico que encontrava nas praias e no mar.

A experiência acabou por mudar o rumo da sua vida. Em 2020, lançou-se a pé pela costa continental portuguesa, percorrendo 1.152 quilómetros entre Caminha e Vila Real de Santo António, numa primeira expedição centrada sobretudo no problema da poluição por plástico.

Quatro anos depois, a viagem prosseguiu pelas ilhas. Em 2024, Andreas percorreu cerca de 280 quilómetros na Madeira e em Porto Santo. Faltavam os Açores para completar o mapa.

Este verão, o The Trash Traveler fechou finalmente o círculo: durante três meses caminhou 1.020 quilómetros pelas nove ilhas dos Açores, elevando para cerca de 2.400 quilómetros a distância total percorrida a pé pela costa portuguesa ao longo dos últimos seis anos.

Três meses a caminhar pelos Açores

A última etapa esteve longe de ser apenas uma caminhada.

Andreas avançou pelas ilhas a uma média aproximada de 18 quilómetros por dia, transportando numa mochila a tenda, saco-cama e o equipamento necessário para documentar a expedição.

Pelo caminho encontrou falésias, praias, zonas vulcânicas e algumas das áreas costeiras mais remotas do arquipélago, mas foram sobretudo as pessoas e os projetos ligados ao oceano que passaram a ocupar o centro da viagem.

Só nos Açores, a iniciativa envolveu mais de 600 participantes, 19 escolas e sete municípios, deu origem a 19 obras de arte colaborativas e proporcionou cerca de 40 encontros com organizações ambientais, projetos científicos e investigadores. Os conteúdos produzidos durante a expedição alcançaram ainda 2,7 milhões de visualizações entre abril e julho de 2026.

A dimensão do projeto ultrapassa, contudo, a última expedição. Desde 2019, as diferentes iniciativas desenvolvidas por Andreas já envolveram mais de 10.000 pessoas, enquanto os seis anos de viagens pela costa portuguesa permitiram estabelecer contacto com mais de 100 organizações ambientais, projetos de investigação e cientistas.

Muito mais do que recolher plástico

Se no início a presença de plástico nas praias foi o motor da aventura, ao longo dos anos a missão tornou-se mais abrangente.

O lixo encontrado passou a funcionar como ponto de partida para abordar questões como o consumo de produtos descartáveis, reutilização, economia circular, biodiversidade, investigação científica e conservação dos ecossistemas marinhos.

Um dos episódios mais impressionantes aconteceu numa pequena baía açoriana, onde Andreas encontrou 154 solas de sapatos concentradas numa área de apenas 25 metros quadrados, um exemplo da forma como resíduos provenientes de diferentes locais podem ser transportados e acumulados pelas correntes oceânicas.

A própria viagem procurou demonstrar que é possível alterar pequenos hábitos. Ao longo dos 2.400 quilómetros, Andreas não comprou uma única garrafa de água descartável, utilizando duas garrafas reutilizáveis que ia enchendo durante o percurso.

O surf como ecossistema

O surf nunca deixou de fazer parte desta história.

Nos Açores, Andreas encontrou também o trabalho desenvolvido pela Save Azores Waves, projeto dedicado à proteção dos chamados “Ecossistemas de Surf”.

A ideia vai além da preservação de uma determinada onda ou pico. Uma onda está integrada numa paisagem costeira, na biodiversidade marinha e terrestre e na cultura das comunidades que vivem à sua volta. Defender um surf spot significa, nesta perspetiva, proteger todo o sistema que permite que esse lugar continue a existir.

É uma visão que se aproxima daquela que o próprio The Trash Traveler foi construindo durante os seis anos de viagem: proteger o oceano não passa apenas por retirar plástico da areia, mas também por compreender e preservar as relações entre pessoas, comunidades, ciência e natureza.

“O que te dá o mar?”

Nos Açores, Andreas decidiu ainda fazer uma pergunta simples às pessoas que foi encontrando pelo caminho:

“O que te dá o mar?”

Mais de 300 pessoas responderam.

As respostas falaram de liberdade, sustento, casa, memórias de infância e da ligação emocional ao oceano. Esse testemunho coletivo está agora a ser transformado num pequeno documentário comunitário, com uma duração prevista de 15 a 20 minutos e conclusão apontada para a primavera de 2027.

Os últimos quilómetros

A longa viagem terminou no Corvo, a mais pequena ilha dos Açores.

Depois de três meses no arquipélago e seis anos a percorrer Portugal, Andreas caminhou da Vila do Corvo até ao Caldeirão. No final do percurso, diante da enorme cratera vulcânica e com o Atlântico à sua volta, sentou-se durante quase uma hora.

Após 2.400 quilómetros a pé, já não existia um próximo quilómetro para percorrer.

Mas o fim da caminhada não significa o fim do projeto.

Os mais de 100 encontros realizados ao longo da costa portuguesa deverão agora ser reunidos numa plataforma digital destinada a dar visibilidade às organizações ambientais, investigadores e projetos científicos que trabalham na proteção do oceano em Portugal. A partir da segunda metade de 2027 estão também previstas apresentações do documentário, uma exposição e palestras pelo país.

Uma história que começou com um surfista incomodado com o plástico que encontrava no mar acabou, seis anos e 2.400 quilómetros depois, por se transformar num retrato das pessoas, da ciência e das comunidades que trabalham diariamente para proteger a costa e o oceano portugueses.

 
 
 
 

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