Sérgio Cosme foi o piloto que rebocou o brasileiro para a onda do recorde mundial. Sérgio Cosme foi o piloto que rebocou o brasileiro para a onda do recorde mundial. Foto: Jorge Figueira

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segunda, 30 abril 2018 10:38

Recorde mundial da maior onda também é português

Rodrigo Koxa foi puxado pelo piloto português Sérgio Cosme… 

 

Na noite de sábado os melhores surfistas de ondas grande do planeta reuniram-se em Santa Monica, na Califórnia, para os 2018 World Surf League Big Wave Awards. A gala distinguiu as melhores ondas e performances do ano passado, mas revelou também um novo recorde mundial de Rodrigo Koxa

 

O charger brasileiro é agora o detentor da maior onda, de 80 pés (24.38 metros), que foi surfada na Praia do Norte, Nazaré, a 8 de novembro de 2017. O reconhecimento oficial bate a marca anterior de Garrett McNamara, conseguida em 2011, de 78 pés (23.77 metros), em 61 centímetros.

 

“Eu tentei surfar ondas grandes toda a minha vida e em 2014 tive até uma das maiores experiências, quando quase morri na Nazaré. Quatro meses depois eu tinha pesadelos, não viajava, fiquei com medo, mas a minha mulher ajudou-me psicologicamente. Agora estou muito feliz e este é o melhor dia da minha vida. Obrigado WSL, é um sonho tornado realidade”, disse o novo recordista. 

 

 

- Rodrigo Koxa com Carlos Burle e Lucas Chianca na gala em Santa Monica. Foto: WSL/Van Kirk

 

No entanto, o que ninguém sabe, é que, por norma, quando se encontra em Portugal, o Rodrigo Koxa faz parelha (equipa) com o piloto português Sérgio Cosme. Esta relação entre o big wave rider “zuca” e o piloto luso já vem desde 2013, altura em que Sérgio começou o acompanhamento com o brasileiro nas águas do Canhão da Nazaré. 

 

"Essa onda do Koxa foi especial, pois estavam vários portugueses na equipa. Além de mim, estava também a Joana Andrade e o António Silva. Desde 2013 que acompanho o Koxa e ao longo dos anos fomos fortalecendo a parceria. Hoje em dia, sempre que cá vem, eu sou o seu piloto, logicamente”, começou por dizer à Surftotal Sérgio Cosme, piloto e surfista de Santa Cruz que, aliás, também já consta na Surfer Wall do Forte de São Miguel Arcanjo

 

Sobre a onda em si, aquela que acabou por ditar uma nova marca mundial, a história é engraçada: "Eu tinha-lhe perguntado se queria surfar várias ondas ou ser mais paciente e esperar pela bomba? É uma pergunta que costumo colocar aos surfistas, pois há quem esteja a marimbar-se e quer é apanhar ondas. A sua resposta foi: "Sérgio, espera pela bomba". Então eu disse-lhe que tínhamos que esperar algum tempo, mas que, eventualmente, apanharíamos a maior. Ele ficou entusiasmado e a sua resposta foi afirmativa. E assim foi. Ele esteve uma hora e meia na corda e, nesse dia, nesse swell, ele acabou por só surfar a onda que bateu o recorde do mundo. Esperámos muito tempo no primeiro pico, ali em frente às pedras, e tentámos várias abordagens em algumas das maiores ondas das séries. Contudo, não eram bem o que procurávamos e acabávamos por voltar atrás". 

 

- Sérgio Cosme no mar da Praia do Norte. Foto: Hélio António

 

"A determinada altura há um set gigante que entra em que eu decido arrancar. Fiz-lhe sinal para a segunda onda, que o Koxa confirma, mas assim que estou a pô-lo na onda começo a ver o topo da seguinte. Vejo o píncaro da terceira, mas vejo também o Rafael Tapia a começar a arrancar nesta segunda onda. Pensei então em deixar o Tapia na segunda e em investir antes nesta terceira onda uma vez que a começava a ver e parecia ser muito grande. Com a decisão tomada, em frações de segundos, entrámos na terceira onda do set que era absolutamente gigante. Posicionei-me debaixo dela, na sua base, bem cá em baixo, e abrandei para que a onda nos apanhasse”, diz Cosme sobre os segundos chave. 

 

Sendo um dos regulares da Praia do Norte, um dos mais experientes e também um dos que já esteve presente em vários mares grandes, o português não tem dúvidas: "Cá em baixo, quando a vi aproximar-se, tenho que ser sincero, nunca tinha visto algo tão grande atrás de mim. Por momentos eu tive a noção de que aquela me parecia a maior onda. Na altura foi engraçado, porque vi o tamanho e até fiquei na dúvida se o Koxa queria ir. “Koxa, queres ir? É bomba! Queres ir?” - gritei. E ele, com uma cara de alucinado, respondeu: “Vai! Vai! Vai!” E pronto, e foi assim. Deixei-o na onda e depois fiz o procedimento normal, tentei andar o máximo possível com ele na onda para o ver, caso caísse. Logo depois fui para detrás da onda e, juntamente com o António Silva, que estava de “second rescue”, levámos com um offshore horrível, tão forte que pareciam facas a bater-nos nos olhos. Eu arranquei atrás dele e não via nada, mas tinha na cabeça que ele não podia lá ficar sozinho. Eu tinha que arrancar e não podia ficar para trás. Naquele momento, foi um misto de sensações muito fortes". 

 

- A onda do recorde mundial, com Sérgio Cosme no jetski a acompanhar a ação. Foto: Pedro Cruz/WSL

 

"Quando o resgatei, lembro-me do Koxa me dizer logo que a onda era gigante, “Eu não cortei, botei mesmo para baixo, fui recto”. Claro que dentro de água, nós temos noção se a onda é grande ou não, mas, logicamente, diretamente não sabemos se será um recorde mundial. É claro que quando saímos e começámos a ver as fotografias e os vídeos, as especulações começaram a surgir e aí começámos a ter a noção de que algo importante aconteceu”, termina por explicar Sérgio Cosme. 

 

Sobre o prémio recebido e o novo recorde, Cosme não tem qualquer dúvida: "O Koxa merece muito isto. Ele já passou mal na Nazaré, já teve uma história assim meio forte e teve que trabalhar muito o psicológico e a sua cabeça para conseguir voltar. Lembro-me do primeiro ano depois do acidente, ele praticamente não queria surfar e nem queria que entrassem ondas gigantes. Realmente a sua confiança tinha sido abalada. Mas este ano foi tudo diferente. Ele queria era a bomba e estava sempre a querer entrar na água. Foi engraçado ver toda a sua evolução até alcançar um recorde do mundo. Mais do que merecido, o seu trabalho tem sido árduo e é super merecido”.

 

Parabéns ao Rodrigo Koxa que foi o surfista que surfou a maior onda do ano passado e é o novo recordista mundial. No entanto, é sempre de enaltecer a equipa que o ajudou a conseguir este feito. Neste caso em concreto, esta é composta de elementos portugueses que coordenaram e acabaram por colocar o brasileiro no sítio certo e, mais importante ainda, na ONDA CERTA. Ao contrário do que se pode pensar, este não é definitivamente um caso de sorte... mas de espera e paciência, de experiência e conhecimento e de muita atitude. 

 

Resta mencionar que a Praia do Norte esteve também envolvida no prémio de “Wipeout Of The Year”, com britânico Andrew Cotton e a onda que lhe valeu uma costela partida, bem como na categoria da “Melhor Performance” através de Lucas “Chumbo” Chianca, brasileiro que venceu o Nazaré Challenge este ano.

 

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AF 

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