" Nem toda a gente está disposta a trair a sua comunidade por dinheiro ou posição." Erasmus Frans
A Surftotal foi a Rote falar com Erasmus sobre a situação de Bo'a e toda a sua envolvente.
Tensão em Rote: acesso à onda de Bo’a divide comunidade local e resort de luxo
A ilha de Rote, na Indonésia, está no centro de uma crescente polémica que envolve o acesso a uma das suas ondas mais icónicas (ler aqui) — Bo’a Beach. Nos últimos anos, alterações no acesso à praia associadas ao desenvolvimento de um resort de luxo têm gerado divisão entre a comunidade local, promotores do projeto e autoridades.
O caso ganhou dimensão internacional após a detenção de Erasmus Frans, surfista local, proprietário de um homestay e figura conhecida na comunidade, acusado de difamação após críticas públicas ao projeto. Apesar de já ter sido libertado, o processo judicial continua em curso, levantando questões sobre liberdade de expressão, direitos das comunidades locais e o impacto do turismo de luxo em destinos de surf.
Enquanto os responsáveis pelo empreendimento garantem que o acesso ao mar se mantém assegurado — ainda que por um novo trajeto —, parte da comunidade defende que o problema vai além da distância ou logística, colocando em causa o princípio de acesso público a um recurso natural que sempre foi partilhado.
Para compreender melhor o que está em jogo, falámos com Erasmus Frans, que partilha a sua visão sobre a história de Bo’a, as mudanças recentes e o que considera ser uma solução justa e sustentável para o futuro da onda e da comunidade.
Nem toda a gente está disposta a trair a sua comunidade por dinheiro ou posição.

Surftotal: Para quem não te conhece, quem é Erasmus Frans e qual a tua ligação a Rote e a Bo’a Beach?
Erasmus: Nasci em Nemberala, na ilha de Rote, um território conhecido como Nusakh Delha, que inclui as aldeias de Sedeoen, Nemberala, Oenggaut e Bo’a. Crescemos como uma comunidade com cultura e linguagem semelhantes. Fomos educados a viver em harmonia com a natureza — era onde brincávamos, onde encontrávamos alimento e onde crescíamos.
No final dos anos 80, começaram a chegar surfistas, trazendo uma nova forma de ver o mar. As ondas que antes nos assustavam passaram a ser desafiadas com coragem. Com o evento de surf em 2000, chegaram surfistas de fora e de Bali, e isso foi o ponto de viragem. Começámos a surfar e a entrar no mar que antes nos intimidava. Isso uniu as crianças locais e mudou a nossa relação com o oceano.

O que significa a onda de Bo’a para ti?
A onda de Bo’a trouxe uma nova fonte de inspiração e também impacto económico. Nemberala tem ondas longas de esquerda, mas ficam longe, exigem caminhadas e nadar mais de mil metros. Já Bo’a é o oposto — é uma direita de grande qualidade, poderosa e perto da praia, com fácil acesso.
Bo’a tornou-se uma inspiração para criarmos a NBSC – Nemberala Boá Surfing Community, em 2008, onde nos juntámos como jovens da praia para surfar e também aprender inglês.
"As ondas que antes nos assustavam passaram a ser desafiadas com coragem."

A direita de Boha / Indolines
Como era a relação da população local com esta praia antes do desenvolvimento do resort?
A comunidade de Delha, especialmente em Bo’a, sempre teve acesso livre à praia. Era um espaço essencial para a vida diária.
As pessoas pescavam, usavam as folhas das árvores de pandanus para fazer esteiras — uma fonte importante de rendimento — e utilizavam a praia como abrigo natural. Os coqueiros davam alimento e rendimento, e o cultivo de algas, que começou por volta de 2000, tornou-se uma nova fonte económica durante décadas.
O mar de Bo’a era um verdadeiro campo de trabalho e sustento para a comunidade.
O mar de Bo’a era um verdadeiro campo de trabalho e sustento para a comunidade.
O que mudou exatamente no acesso à praia nos últimos anos?
Em 1997, a comunidade e o governo construíram um acesso público à praia de Bo’a a partir da estrada principal, com apoio de um programa para o desenvolvimento de aldeias. Foi feito com participação da comunidade e aprovação dos proprietários dos terrenos.
Mais tarde, em 2013, houve outro programa governamental que melhorou o acesso, também sem qualquer oposição. Era claramente um acesso público, construído com envolvimento da população.
Podes explicar de forma simples como funcionava o acesso antes e como funciona agora?
Antes, existia um acesso direto, público, usado pela comunidade durante décadas. Esse acesso foi sendo alterado com o desenvolvimento do projeto.
Hoje, o acesso foi deslocado para outro ponto, mais distante, obrigando as pessoas a caminhar mais para chegar à praia. Além disso, esse novo acesso depende de terreno associado ao resort, o que levanta preocupações sobre o controlo futuro.

Eles dizem que espalhaste informações falsas e que recusaste mediação. Qual é a tua resposta?
Então quem está realmente a mentir? Ao nível da aldeia, o lado da Nihi forçou o encerramento da estrada e ofereceu um acesso alternativo.
Entre maio e dezembro de 2024, a comunidade e o governo local rejeitaram essa proposta em todas as reuniões. Quando a comunidade tentou defender o acesso, isso foi tratado como coerção, não como mediação.
Quanto às acusações de informação falsa, se eu estivesse a mentir, seria eu a procurar mediação. Mas as propostas de mediação que me fizeram eram para eu pedir desculpa e admitir que o acesso era privado, o que não é verdade. Nem toda a gente está disposta a trair a sua comunidade por dinheiro ou posição.
As propostas de mediação que me fizeram eram para eu pedir desculpa
e admitir que o acesso era privado, o que não é verdade.
Sugeriste soluções alternativas para o acesso à praia. Podes explicá-las melhor?
Eles conhecem as regras e sabem qual seria uma solução justa, mas ignoram isso.
A melhor solução é restaurar o acesso central. Mas, se a alternativa for manter o acesso pelo lado oeste, então esse caminho deve ter quatro metros de largura até à praia.
Além disso, deve existir uma zona pública ao longo da frente de praia, com um passadiço entre 10 a 20 metros acima da linha de maré cheia, garantindo acesso justo para todos.
Se isso comprometer a privacidade do resort, então a única solução justa é reabrir o acesso original.

Erasmus após saber da sua libertação foi muito acarinhado
Qual seria uma solução justa e sustentável na tua opinião?
Existem outras ilhas, como Ndana e Doa, que têm potencial turístico e ainda não estão desenvolvidas. Existem leis para a gestão costeira e das pequenas ilhas.
Não somos contra o investimento, mas ele tem de ser justo. Bo’a e Nemberala não são locais adequados para modelos de privatização ou exclusividade.
Se pudesses dizer algo diretamente à comunidade global de surf sobre Bo’a e o que está a acontecer, o que dirias?
Quero agradecer a todos os que enviaram apoio e partilharam as suas opiniões. Isso ajuda-nos a perceber melhor a situação e dá-nos força para continuar.
Turismo sustentável é sobre pessoas e natureza. A nossa natureza humana é ajudar os outros.
E se não conseguimos ajudar, pelo menos não devemos prejudicar.





