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quarta-feira, 13 agosto 2014 19:09

PRANCHAS DE CORTIÇA. UM PROJETO ÚNICO QUE FICOU A MEIO

António Valente foi o responsável pelo desenvolvimento de pranchas de cortiça e já convenceu Hugo Vau e Andrew Cotton

 

“A prancha que experimentei é patenteada e desenvolvida em Portugal com cortiça. A principal vantagem, a meu ver, é o fato de a matéria-prima ser natural, portanto mais ecológica que o foam, e a cortiça parece ser um material bastante eficiente na absorção da energia, o que torna a prancha estável. Foi a primeira vez que a pus realmente à prova, e senti bastante suavidade e velocidade.” Foi assim que Hugo Vau descreveu a prancha feita de cortiça usada numa onda que foi premiada para o Billabong XXL. A SurfTotal esteve à conversa com os seus criadores.

 

António Valente nunca esteve ligado ao surf. Dedicou-se à vela, mas o mais próximo que está do mar é nos projetos submarinos desenvolvidos pela sua empresa de Engenharia Aeronáutica, a PLY. “Desenvolvemos tecnologia com base em materiais. Somos uma empresa de engenharia naval, aeronáutica e militar, portanto trabalhamos com quase todos os materiais que existem e de uns tempos para cá começámos a trabalhar para aplicações na área dos transportes com materiais de cortiça e percebemos que havia propriedades interessantes a nível de vibrações”, explica-nos. Foi a partir deste ponto que António, juntamente com a sua equipa e a empresa “Nova Cortiça”, começaram a desenvolver a tecnologia em torno da absorção de vibração, tentando levar a mesma para as pranchas de surf. “Fizemos alguns protótipos e percebemos que a cortiça seria interessante para as pranchas de tow-in por causa das velocidades e das tais vibrações.”

 

“É mais resistente, mais segura, mais estável, não parte como as pranchas convencionais e não vai amolgar. As pranchas de ondas grandes têm de ser pesadas e o que os surfistas fazem é pegar na prancha e colocar peso em cima”, continua. Com este tipo de material, isso deixa de ser necessário.

 

António acredita que esta é a primeira boa aplicação da cortiça no surf, tendo ainda muito para ser explorado. “Possivelmente pode-se tirar os stringers e usar apenas os rails exteriores para modelar a prancha… tem ali um potencial de desenvolvimento muito interessante. Além de que a prancha tem um comportamento muito superior. Não sou especialista, mas penso que as ondas da Nazaré se distinguem de outras ondas, pois o nosso mar é muito picado, aliás o oceano Atlântico é muito batido e a cortiça pode ter um desempenho fundamental para quem surfa mar com tamanho”, sublinhou.

 

Questionado sobre o que os distingue de outros projetos que alegam usar a cortiça em pranchas, o engenheiro mecânico não tem dúvidas de que de se trata apenas de marketing. “Todos esses projetos são da treta. As pessoas acham que a comunicação de tudo é marketing e esquecem-se que os produtos devem ter valor intrínseco. Além da reciclagem e do aspeto visual, não têm nada para oferecer. Quando falo em pranchas de cortiça falo do blank de cortiça… grande parte das pranchas que ouvimos falar que são de cortiça são blanks de espuma revestidos a uma pele de cortiça e isso pode ter alguns benefícios a nível de tato e do contacto mas a prancha continua a ser dominada pelo comportamento da espuma”, explicou-nos.

 

Talvez por isso António tenha optado por se afastar um pouco da indústria do surf, sentindo até alguma revolta no que toca a esta matéria. No entanto, não fazendo disso o seu negócio, acaba por fabricar para quem lhe pede, embora nos confesse que está aberto ao mercado.

 

A prancha quem a tem é o big rider português Hugo Vau, que confirma a tese. E Andrew Cotton parece ter alinhado no produto português. “Tenho um blanque para o Andrew, que ele depois vai mandar para o seu shaper. Neste momento, o meu único envolvimento nesta área é dar pranchas. Pagar os protótipos, o material, o fabricante e oferecer os blanques”, disse, afirmando que o faz por gosto. “É triste deixar os estudos no papel e é estupido um projeto destes ficar na carteira”, lamentou o profissional de 46 anos.

 

BS

  • Créditos fotos: Facebook Ply

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