As águas paradas junto à costa, sobretudo em períodos de calor intenso, podem criar condições mais favoráveis à proliferação de bactérias e outros microrganismos. quarta-feira, 01 julho 2026 12:33 Aquecimento do mar aumenta risco de bactérias nas zonas costeiras Portuguesas
O que isto significa para surfistas e banhistas...
A subida da temperatura da água pode favorecer a presença de bactérias do género Vibrio em zonas costeiras, estuários e áreas de menor salinidade, exigindo maior atenção de banhistas, surfistas e consumidores de marisco cru.
O mar está a aquecer e isso não altera apenas as ondas, os ecossistemas e a biodiversidade. Também pode mudar os riscos invisíveis associados às zonas costeiras.
Com a chegada do verão e o aumento da presença de banhistas, surfistas e praticantes de desportos náuticos nas praias portuguesas, cresce a importância de olhar para a qualidade da água não apenas do ponto de vista da poluição tradicional, mas também da presença de microrganismos que prosperam em águas mais quentes.
Entre esses microrganismos estão as bactérias do género Vibrio, que existem naturalmente em ambientes marinhos e costeiros. A maioria não representa perigo para pessoas saudáveis, mas algumas espécies podem provocar infeções gastrointestinais ou infeções em feridas, sobretudo em pessoas mais vulneráveis.
A preocupação tem aumentado na Europa porque estas bactérias encontram condições mais favoráveis em águas quentes, pouco profundas e de menor salinidade, como estuários, lagoas costeiras e zonas onde a água doce se mistura com a água do mar.
O que é a Vibrio?
Vibrio é o nome de uma família de bactérias aquáticas presentes em ambientes marinhos e salobros.
Algumas espécies, como Vibrio parahaemolyticus, podem estar associadas ao consumo de marisco cru ou mal cozinhado. Outras, como Vibrio vulnificus, podem causar infeções mais graves quando entram no organismo através de feridas abertas.
Esta última ficou conhecida na imprensa internacional como “bactéria carnívora”, uma expressão forte e mediática usada devido à possibilidade, rara mas grave, de provocar infeções agressivas dos tecidos.
Apesar disso, é importante evitar alarmismo. O risco continua a ser baixo para a maioria das pessoas saudáveis. O problema merece atenção sobretudo em situações específicas: feridas abertas, sistema imunitário fragilizado, doença hepática, diabetes, idade avançada ou consumo de marisco cru.
Porque é que Portugal deve estar atento?
Portugal tem uma extensa linha de costa, forte cultura balnear, várias zonas estuarinas e uma relação direta entre mar, turismo, pesca, marisco e desportos de ondas.
Isto não significa que as praias portuguesas estejam perante uma ameaça generalizada. Significa, antes, que o aquecimento do mar obriga a maior vigilância e prevenção.
Zonas como estuários, rias, lagoas costeiras, áreas de menor circulação de água e locais sujeitos a maior pressão humana podem tornar-se mais sensíveis quando se combinam vários fatores: temperatura elevada da água, menor salinidade, poluição, descargas, ondas de calor e maior presença de pessoas no litoral.
Para surfistas, bodyboarders, nadadores e praticantes de stand up paddle, o ponto mais importante é simples: evitar entrar na água com feridas abertas em zonas onde existam alertas de qualidade da água ou sinais de contaminação.
Feridas abertas são a principal porta de entrada
Quem surfa sabe que pequenos cortes fazem parte da rotina.
Um toque no reef, uma rocha escondida, uma quilha, uma queda na areia mais dura, uma bolha aberta no pé ou uma ferida recente podem parecer pouco importantes. Mas, em águas contaminadas ou biologicamente mais favoráveis à presença de bactérias, podem tornar-se portas de entrada para infeções.
A recomendação é simples: se houver feridas abertas, sobretudo profundas ou recentes, deve evitar-se entrar no mar em zonas de risco. Quando o contacto com a água for inevitável, a ferida deve ser protegida com penso impermeável e bem desinfetada depois da sessão.
Qualquer sinal de infeção rápida, vermelhidão intensa, dor anormal, inchaço, febre ou agravamento da ferida após contacto com água do mar deve ser avaliado por um profissional de saúde.
Marisco cru também exige cuidados
O risco associado à Vibrio não está apenas no contacto com a água.
Algumas destas bactérias podem acumular-se em marisco, sobretudo bivalves filtradores como ostras, amêijoas e mexilhões. O consumo cru ou mal cozinhado pode provocar problemas gastrointestinais e, em pessoas vulneráveis, complicações mais graves.
Por isso, cozinhar bem o marisco, respeitar a cadeia de frio, comprar em locais certificados e evitar o consumo cru por pessoas imunodeprimidas, idosos, grávidas ou pessoas com doenças crónicas são cuidados cada vez mais relevantes.
Um sinal de um oceano em mudança
A presença de bactérias como a Vibrio deve ser entendida como parte de uma transformação mais ampla.
O aquecimento do mar, a poluição costeira, a pressão turística, as descargas em zonas sensíveis e as alterações nos ecossistemas criam novas condições para microrganismos que antes tinham menos espaço para se desenvolver.
O oceano continua a ser o grande recreio natural de milhões de pessoas. Mas um mar mais quente exige maior atenção, mais informação e melhor vigilância.
Para Portugal, país profundamente ligado ao Atlântico, este é também um tema de saúde pública, turismo, ambiente e cultura de mar.
O que podem fazer surfistas e banhistas?
A prevenção não exige pânico. Exige bom senso.
Antes de entrar no mar, vale a pena consultar a qualidade da água balnear, respeitar eventuais avisos das autoridades, evitar zonas com sinais visíveis de poluição e ter atenção redobrada após chuvas fortes ou descargas.
Quem tem feridas abertas, cortes recentes, tatuagens ou piercings recentes deve evitar o contacto com água potencialmente contaminada.
Depois da sessão, sobretudo em zonas de maior risco, é aconselhável lavar bem cortes e arranhões com água limpa e desinfetar.
O mar português continua a ser um dos maiores patrimónios do país.
Mas as alterações climáticas estão a lembrar-nos que proteger o oceano é também proteger quem vive dele, quem o visita e quem entra nele todos os dias.




